Por Priscila Minani
“Era uma casa nem tanto engraçada, porque só tinha o teto e não tinha mais nada. Ninguém podia chamar de casa não, pois nem o piso ela tinha no chão”.
Foi mais ou menos nesse estado que Maria Angélica Dias Correia, 52 anos, recebeu sua casa. Era 23 de junho de 2006 e as primeiras casas da COHAB construídas em parceria com a Prefeitura seriam sorteadas. O evento aconteceu na Câmara Municipal de Frutal. E o sistema era o seguinte: as pessoas interessadas e que atendiam ao perfil requisitado fizeram uma inscrição. Depois, num processo funil, algumas pessoas foram selecionadas, até se chegar ao número que correspondia à quantidade de casas disponíveis para o sorteio.
Entre os futuros premiados, havia uma cobiça muito grande em torno de um mesmo endereço. A casa da Rua Aristóteles no cruzamento com a Rua Janot Ferreira, nº 81, no bairro Paralelo XX. Por se tratar de um conjunto habitacional, todas as construções são uniformes e, portanto, similares. Porém, esse endereço destinava-se a uma casa de esquina, acompanhada de um bom pedaço de chão para um possível jardim. Tais características levaram as pessoas a pensar que a casa seria maior. Logo, entende-se a cobiça.
O sorteio começou e foi lançada a sorte. Por ordem alfabética, os cidadãos que haviam sido selecionados pelo sistema funil, iam descobrindo qual seria a sua residência. À medida que os endereços iam saindo, aquela habitação de número 81 ia deixando esperançoso quem não tinha o nome começado pelas letras A, B e até o L. Isso porque, quando chegou a vez dos “M”, Maria Angélica, citada no começo, tirou o endereço cobiçado. Uma pontinha de inveja em quem não conseguiu certamente apareceu, mas para ela a casa era como as outras e não tinha nada demais.
Não tinha - que fique bem claro! Pois, depois de apossada, a casa nunca mais foi aquela construção bruta, sem forro, piso ou portas. A sorte, na verdade, foi mais da casa do que da dona. Talvez nenhum outro sorteado tivesse tido tanto capricho e criatividade quanto Angélica, como prefere ser chamada. É percebido e reconhecido por quem já viu, que a casa da esquina da Rua Aristóteles com a Janot Ferreira tem um toque a mais.
Toques de delicadeza
Virando a rua, é possível avistar de longe uma cerca branca parecida com aquela dos filmes sobre os subúrbios americanos em meio a tantos muros altos. Em uma sociedade cada vez mais preocupada em se trancar buscando proteção, Angélica compartilha de um pensamento diferente: “o muro traz curiosidade. As pessoas querem saber o que tem lá dentro. No meu caso elas já veem. Sinto-me a pessoa mais segura”.
Com as janelas abertas para admirar a rua, e valorizando sempre a sensação de liberdade, o cadeado na cerca branquinha chega a ser engraçado. Angélica conta que a falta de muros nunca lhe trouxe problemas. Enquanto a maioria das casas vizinhas já havia sido assaltada, da dela a única coisa que levaram foi a caixinha de correio, atualmente substituída por uma charmosa garrafa pet pendurada na cerca. Angélica ri do episódio, contando que nem as correspondências foram poupadas.
Continuando a receita do encantamento, o jardim possui plantas e bancos, além da presença de pequenos vasos de flor artificiais nas janelas, transmitindo uma sensação aconchegante. As pequenas árvores estão podadas com todo o cuidado em formas geométricas. O encanto se intensifica a medida que se observa a parte interna da casa. Na sala, o olhar tem que ter um campo de visão de 360º para se conseguir admirar tudo. O sofá laranja de babados azuis lembra as casas da Barbie da infância. No rack, porta-retratos decorados manualmente por Angélica transformaram pedaços de bijuterias em arte. Florzinhas feitas de biscuit enfeitam a parede pintada de azul céu com o auxílio de um bloco de espuma. O jardim artificial ainda pode ser encontrado nos espelhos, na parede da cozinha e dos quartos.
Nenhum cantinho da casa se sente excluído. É levada ao extremo a customização de cada detalhe. E o capricho se estende por todos os seis cômodos da casa. Os dois quartos, banheiro, sala, cozinha e o hall, ganharam uma atenção especial de sua dona. No lugar de portas, há cortinas de renda branca. Na porta da geladeira, adesivos sugerem um ambiente de natureza. Algumas frases motivacionais foram espalhadas pelo lugar.
A casa foi decorada com muito trabalho e dificuldade por Angélica. Tudo ali é fruto de muito esforço. Pela beleza surpreendente é possível dizer que nenhum obstáculo intimidou o amor que ela sente pela sua casa. Casa não, seu “lar”. É assim que prefere chamá-lo: “na vida, não adianta ter uma casa, é preciso ter um lar, um lugar onde você tenha paz e não sinta solidão”, defende Angélica, com simplicidade. O lugar se parece mais com um cenário e é assim mesmo que as pessoas o entendem. A proprietária conta feliz que não há quem passe sem comentar o quão bela é a sua casinha de boneca. Muitas pessoas fazem dali um ambiente fotográfico para casamentos ou ensaios casuais.
E ela se incomoda? Ao contrário, diverte-se. É imenso o apego da dona pela casa. E pra quem já teve contato, fica claro a imagem de que uma não existiria tão perfeita sem a outra. Quando se pede uma definição sobre o lar, Angélica responde: “Para mim é uma realização pessoal por ter um teto. Sou feliz aqui e é o melhor lugar que tem”.
Angélica
A formosura e a delicadeza que esta reportagem foi tomando deixaram a repórter confusa. De início, o foco principal era a casa, que por ser incomum, era evidente o desafio de se mostrar porque era extraordinária. As perguntas foram preparadas e tudo ia caminhando normalmente até se chegar ao lugar. O ambiente convidativo tem essa característica graças a quem assim o moldou. A receptividade de Maria Angélica concorreu com a beleza da casa. Se as florzinhas na parede eram bonitas, o amor na face dela ao dizer como fez tudo era ainda mais.
Mãe de dois filhos, vó de quatro netos, funcionária pública da Prefeitura de Frutal. Mora sozinha. É alegre, sorridente, carismática e vaidosa. O batom vermelho, as unhas feitas e o cabelo arrumado não deixam dúvidas. Bom humor é outra qualidade que a cerca. A impressão é de que dias tristes não tem vez na vida dela. As dificuldades fazem parte, mas não são nada perto de tudo que há de bom. Sobre a criatividade, as imagens que ilustram esta matéria falam por si. Ela acredita ainda que não é o ambiente que faz a pessoa e sim o contrário, pois “tudo é uma questão de criatividade, você pode morar num barraco, mas se lá você se sentir bem, você reflete isso no lugar”.
Aproveitando a presença de uma amiga de Angélica no dia da entrevista foi possível saber um pouco mais sobre esse talento personificado. Patrícia Mello Augusto Fernandes é de São Paulo e estava hospedada por uns dias na casa da amiga. Conta ter ficado pasma quando conheceu o lugar, assim como todos os que têm a mesma oportunidade. Além disso, ela só confirmou a impressão de quem tinha acabado de conhecer Angélica “é uma pessoa muito carismática e conhece todo mundo. Ela é um ser iluminado”, diz Patrícia.
Ao final da entrevista, perguntada sobre a possibilidade de erguer muros em sua casa, Angélica imediatamente responde: “Não quero muros. Eu protejo minha liberdade”.

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