Filhos do afeto

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Por Priscila Minani

 “Ah, este tem meu sangue”; “Puxou para a mãe”. Essas são expressões bastante comuns quando se fala das características de um filho. A constante comparação de aparência física e hábitos cotidianos moldam os descendentes de acordo com os seus pais. No entanto, uma atitude de amor tem mudado um pouco essa história. E nesta prática a Justiça foge da função de definir inocentes e culpados e passa a ter o papel de permitir a criação e o crescimento de novas famílias. Trata-se da adoção.

Pessoas que não podem ter filhos biológicos, mulheres solteiras que desejam ser mães ou até pessoas que tomam esta decisão por uma causa social optam pelo acolhimento de crianças e adolescentes que não tiveram a oportunidade de conviver em um ambiente familiar. Assim, a vontade de amar alia-se àqueles que precisam ser amados. Mães e filhos que podem nunca antes ter se visto, compartilham de um sentimento afetivo de identificação e conseguem construir uma nova história.

Para as mães, não ter tido o contato primeiro com a criança incluindo o período de gestação e todo o acompanhamento que lhe cabe, não diminui o laço afetuoso de considerá-los como filhos de verdade. Embora o cordão umbilical seja apenas simbólico, a convivência é real e as questões biológicas não fazem diferença.

Em contrapartida, encontra-se o medo que muitos pais têm de que seus filhos tornem-se adolescentes rebeldes pelo fato de serem adotados. Travessuras, brigas e broncas são atitudes corriqueiras do desenvolvimento da personalidade do adolescente. Mas não há razão para pânico! Psicólogos alegam que a probabilidade de filhos adotivos revoltarem-se é a mesma dos filhos biológicos, pois apesar dos primeiros supostamente terem motivos para tal revolta, o amor incondicional e a educação que recebem dos pais devem ser os mesmos e isso reduz essa possibilidade de rebeldia.


“Eu sabia que era ela”

“Não existe filho adotivo. Filho é filho independente da forma que ele veio até você.” É assim que a assistente social judicial Delimar Cunha Trivelato fala sobre o assunto. E se engana quem diz que ela vê a situação de fora e, portanto, é fácil palpitar. Delimar lida com o tema da adoção além do seu horário de expediente. Mãe de dois filhos, ela tem um biológico de 19 anos e uma menina adotada (pede-se desculpas à Delimar pelo uso do termo), de 11 e afirma que, por ter vivido as duas experiências, sabe que o amor é o mesmo.

Para defender esse sentimento ela conta que considera o processo de adoção como se fosse uma gestação, só que emocional, pois enquanto a criança está no ventre, embora ela possa ser sentida, ainda se trata de um ser desconhecido e que o afeto vem com a convivência e, nesse aspecto, ela não falta com sua filha.

Dos fatores que contribuíram para a decisão pela adoção, Delimar relata que o desejo de exercer novamente a maternidade atrelado ao seu estado civil de solteira, levou-a à adoção. Para a sua felicidade, conseguiu o que a maioria dos casais almeja, que é adotar uma criança de até um ano de idade. Sua filha chegou a seus braços com apenas dois dias de vida: “é até engraçado, mas quando eu entrei no berçário do Hospital São Francisco de Assis, não foi preciso me dizer quem era minha filha. Entre os cinco bebês que tinha lá eu sabia quem ela era.”

Delimar ainda conta que apesar do desejo de ser mãe estar presente em quase todas as mulheres, há aquelas que não o possuem e acredita que isso não seja compreendido pela sociedade. Por isso, mulheres dão à luz e logo em seguida deixam seus filhos em abrigos, nas ruas e até mesmo em caçambas, o que pode ser justificado pela tamanha repressão social de não se ter o instinto materno.

Na educação dos filhos, Delimar considera importante contar a verdade para os filhos adotivos e acha errado quem dá mais liberdade ou é mais rígido com quem é adotado. Ela acredita que se deve impor limites e esquecer o medo de perdê-los por não possuírem seu sangue e que o ato de ser mãe não depende de laços corporais.  “os vínculos são da alma e não do corpo”. Assim, a adoção trata-se não de ter concedido a vida ao filho, mas de lhe ter dado uma razão para viver.