Palavras ao vento e ao twitter

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Desde que o Twitter decretou que em 140 letras dá para sintetizar uma idéia, o proselitismo político sofreu um golpe mortal. Racionalizar idéias e condensá-las em um pequeno conjunto de palavras passou a ser essencial para quem quer ser lido ou ouvido no universo das idéias.

A verdade é que, mais que antes, somos um povo com pressa. A verdade é que, cada dia mais, temos menos paciência para conversas longas e discursos intermináveis. O povo foi se acostumando a separar joio do trigo e já viu com clareza que nem sempre quem fala bem faz o certo. Nem sempre quem promete tudo é capaz de cumprir, em ações, o que disse em palavras. Nem sempre o joio é o joio, nem sempre o trigo é o trigo...

Não é ruim que o mundo esteja mais rigoroso no uso e no consumo da palavra. Objetividade faz bem a qualquer um e acaba por dar um sentido prático as coisas do dia a dia. Isso não impede que, vencida a etapa de trabalho e que já recolhido à sua própria intimidade (cada dia menor com tantas câmeras por perto), as pessoas possam recorrer ao charme de uma poesia e se estender numa leitura mais prolongada e consequentemente viver o deleite das palavras bem usadas por poetas e grandes escritores.

Estou falando isso tudo porque acredito na força da palavra. Feita na pressa, aplicada na urgência das horas, escolhida como petardo em meio às discussões ou eleita para acariciar uma pessoa à distância.

Acredito na palavra porque a pratico diariamente e fiz toda minha trajetória através ou da palavra ou da não-palavra. A não-palavra não significa apenas o silêncio, que via de regra traduz até omissão. A não-palavra é dizer, sem palavras, o que realmente você pensa. Aprendi muito da "não-palavra" com meu avô Pedro Rodrigues da Silveira e com o meu bisavô Vicente Eulálio da Silveira.

Vicente Eulálio era um eloqüente orador. Falava como filósofo, mas, quantas vezes, seu olhar ou seu silêncio falaram mais que dúzias de palavras. Pedro Rodrigues, pai de meu pai, e primo primeiro de Vicente Eulálio (avô da minha mãe), adorava "não falar". A "não-palavra" nele era frequente e forte. Expressiva, vibrante. E para falar algo pensava muito. Não escorregava na forma e nem no conteúdo.

O vô Vicente teria dificuldades de expressar o que pensa em 140 toques do Twitter. O vô Pedro faria uma frase com muito menos. Ambos, contudo, ainda falam alto dentro de mim e por certo sempre falarão. E eu escuto, com calma e paciência. O eco de uma palavra é um aprendizado permanente... mesmo que sejam palavras ao vento ou ao twitter...


Narcio Rodrigues é jornalista, deputado federal e Secretario de Estado de Ciência Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais