Por Natália Coquemala e Rafael Ferreira
“Música e vida se completam.”, é o que pensa Eliane Lacerda, diretora do conservatório municipal João Adriano de Barros, que há mais de quatro anos vem dando a comunidade frutalense a oportunidade de um contato mais próximo com a música.
Eliane realmente tem a música em alta conta. Para ela, a pessoa que se envolve com música aprende valores para a vida. Pratica a humildade, o respeito, a disciplina. “São todos os valores da vida que todos nós devemos praticar. Música é o encanto da vida, ajuda a florescer e colorir com sentimentos e emoções.”
O conservatório é fruto da parceria entre a prefeitura de Frutal e Antônio Benedito Barbosa, proprietário do terreno onde está localizada a escola de música. Para se chegar a esta parceria uma breve história precisa ser contada.
Como era costume na época, a mãe de Antônio deu à luz a ele em casa, vindo a falecer após o parto. O recém-nascido foi criado pelos avós maternos e durante toda a infância criou um amor por aquela casa.
O espaço onde funciona o conservatório foi cedido por Antônio, que se tornou advogado e hoje mora em São Paulo.
Muito católico, quis fazer do lugar que foi sua morada, um espaço que atendesse a comunidade. Entregou o local ao Pe. Geovani, na época o responsável pela paróquia Santo Antônio, para que o lugar fosse utilizado para trabalhos comunitários. O padre começou fazendo ali algumas reuniões como, por exemplo, grupo de mães, porém, vendo que aquele espaço poderia ser mais bem aproveitado, a igreja o cedeu para a prefeitura.
A prefeita Maria Cecília Marques Borges, a “Ciça”, sempre teve planos de criar um espaço que trabalhasse com música para a comunidade frutalense. Ela viu nessa cessão do imóvel uma boa oportunidade e iniciou o projeto. Em 21 de março de 2007 foi fundado o Conservatório Municipal “João Adriano de Barros”.
Logo no começo já foram iniciados os cursos de flauta doce, teclado, violão e canto. E foi um sucesso. “Atendíamos as pessoas que não tinham condições de pagar por uma aula particular, então elas vinham pra cá e as aulas eram em grupo. A população se interessou muito, mesmo com o pequeno espaço sempre tivemos de 200 a 350 alunos. Esse conservatório veio completar momentos na vida das pessoas” comenta Eliane.
Coincidência ou destino?
Muitos dizem que tudo é obra do destino. Então, neste caso, ele trabalhou incansavelmente em seu objetivo. Antonio é de uma família muito culta e sempre teve contato com a música. A prefeita Ciça também, toca piano e sempre foi muito musical.
Antonio nasceu em 22 de novembro, considerado o dia da musica. Ciça nasceu na mesma data.
Ciça sempre desejou que Frutal tivesse um local voltado para a música e que atendesse a população. Antonio queria que o local, onde passou sua infância e o qual muito amava, fosse usado também em prol da comunidade frutalense.
Antonio teve três filhos, sendo a do meio mulher. Maria Cecília era o nome dela. O apelido era Ciça. Assim como o pai, sempre foi apaixonada por musica e também por todo aquele espaço. Ela foi assassinada e seu pai colocou seu nome na pequena capela que existe no conservatório.
Coincidências ou não, o fato é que de alguma maneira a prefeita Ciça e Antônio estavam ligados na realização desta obra.
O projeto arquitetônico
Foi o próprio Antonio quem planejou todo o local onde hoje funciona o conservatório. Ele queria transformar aquele espaço mas também queria conservar a história. A casa onde nasceu e morou não pode ser mudada. Ela deve ser mantida exatamente como foi construída. Essa exigência do proprietário faz parte do documento de concessão.
A pequena capela “Santa Cecília”, padroeira dos músicos, fica no lado esquerdo do portão de entrada, nos fundos do conservatório. Ela foi construída em homenagem a São Dimas, assassino que foi crucificado ao lado de Jesus, mas se arrependeu e foi perdoado. Essa capela é uma forma de Antônio perdoar o assassino de sua filha Ciça.
Quem foi João Adriano de Barros?
Um pequeno garoto pobre sentado em uma calçada tocando um cavaquinho faltando cordas. Foi assim que o maestro Josino de Oliveira encontrou João Adriano enquanto andava pela rua.
Ele ficou encantado com a musicalidade que tinha aquele “menino de rua”. Procurou saber quem eram seus pais e descobriu que João era órfão. Entrou com um pedido de adoção perante o juiz e conseguiu a guarda do pequeno garoto.
João Adriano foi um grande músico. Ensinou música, foi maestro da banda de Frutal, tocou vários instrumentos e fez uma história musical muito importante na cidade, deixando inúmeros discípulos.
Cursos
Atualmente o conservatório tem cerca de 250 alunos e conta com oito cursos: violino, violoncelo, bateria, violão, teclado, acordeom, flauta doce e coral. Funciona de segunda a sexta-feira durante os três períodos. É aberto para toda comunidade, com alunos a partir de 10 anos de idade.
Os alunos que não têm condições de contribuir vão até a assistência social onde é emitido um laudo e esse aluno é isento da contribuição. Os que podem contribuem com um valor de vinte reais por mês. Esse dinheiro é utilizado para a manutenção dos instrumentos, das instalações e também ajuda na realização das apresentações feitas pelos alunos. A prefeitura não pode a todo o momento arcar com os gastos imediatos que são necessários. A burocracia é grande, e essa foi uma forma encontrada para suprir as necessidades mais urgentes.
As aulas são em grupo. Quem gere todo esse projeto é a Secretaria de Promoção Humana.
O conservatório não é apenas uma escola que ensina a tocar um instrumento. “Temos toda uma condução pedagógica. Os alunos fazem, além do instrumento, aula de percepção, como teoria musical. Pretendemos ir acrescentando, com o passar do tempo, aulas de história da música, apreciação musical, música de conjunto e mais uma série de matérias afins. Não se faz um músico só com notas, mas também com disciplina e respeito, e isso nos ensina a viver.”, acrescenta Eliane.
Alunos e professores
Pablo Henrique de Melo Correa é professor de canto/coral no conservatório há quatro anos. Segundo ele, o curso é livre, porém requer uma boa base de percepção musical. As aulas de canto acontecem uma vez por semana, nas segundas-feiras, das 19h às 21h na própria sede onde funciona a escola de música. “É uma espécie de coral municipal, servindo a comunidade em apresentações e eventos.”, acrescenta Pablo.
Geovanna Ferreira Silva, 14, faz parte da primeira turma de coral do conservatório. A sorridente garota conta que sempre cantou. Aos oito anos, quando ia à missa e participava do coral infantil da paróquia Nossa Senhora Aparecida, ficava fazendo arranjo nas musicas. Quando teve, em 2005, o coral na escola primária onde estudava, participou por curiosidade. Começou a fazer apresentações e “foi brotando em mim aquela vontade” diz Geovanna.
Para ela as aulas em grupo são boas. O conservatório não tem suporte para atender os alunos individualmente. “O fato de ser em grupo não diminui a qualidade do ensino” afirma.
Além do coral, Geovanna também aprendeu a tocar instrumentos. Desde 2007 faz teclado e esse ano está aprendendo violino. Violão aprendeu sozinha, mas ano que vem pretende começar a fazer aula para aprimorar seu conhecimento. Conta com o forte apoio dos pais, que a incentivam a sempre continuar e vão a todas as suas apresentações.
Ela não sabe se no futuro vai viver de musica. Talvez esse seja apenas um hobby ou uma segunda opção de faculdade. “A faculdade de música implica muito a parte de instrumentos, e estes são um complemento, uma diversão” confessa a menina.
Quando fala sobre o que sente com a música a feição da pequena garota se transforma completamente. Surge um sorriso de felicidade e se percebe a satisfação por estar falando sobre algo que gosta.
Para ela música é algo maravilhoso. Uma das coisas mais importantes. Tudo foi sendo formulado em cima desse caminho. Os amigos que tem, os lugares que freqüenta são graças a música. Pensa que se não tivesse começado no coral de primário em 2005, hoje talvez estivesse em uma direção totalmente diferente.
“Não sei se a minha vida vai continuar com a música daqui a algum tempo, mas hoje, eu devo tudo isso a música” comenta em um tom de agradecimento.
Como se informar sobre os cursos: o endereço do conservatório é: Rua Frei Teodósio nº 400, fone: 3421-8496.
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