Frutal na 1021ª no Ranking do IDHM. Isto é bom ou é ruim?

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Por Rafael Del Giudice


No final do mês de julho a Organização das Nações Unidas – ONU – divulgou o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) das cidades brasileiras. Frutal tem um IDHM alto, 0,730 (o valor é variável de 0 a 1), e a classificação nacional foi a 1021ª colocação dentre os 5565 municípios da Federação. No ranking estadual a cidade aparece na 83ª posição. Mas o que isso significa? Que colaboração esses dados podem ter no planejamento das ações do poder público e dos gestores da cidade?

Antes de pensar nas respostas para essas perguntas é necessário entender o índice. O IDHM é calculado por três variáveis – educação, longevidade e renda – que são medidas, somadas, divididas e aí formam a nota final.

A composição da nota para educação municipal é a mais complicada de se entender. Existem dois indicadores diferentes. O percentual de pessoas com mais de 15 anos que estão alfabetizados recebe peso dois. Depois, leva-se em conta a soma do número de pessoas – independentemente da idade – que frequentam os cursos fundamental, secundário ou superior da cidade e divide-se esse valor pelos habitantes que têm entre sete e 22 anos de idade. Esse percentual recebe peso um. A partir daí, é feita uma média geométrica dos valores até que se chegue à nota final.

O critério utilizado para compor a nota da renda do município é o da renda per capita, ou seja, a soma da renda de toda a população é dividida pelo número total de habitantes.

A última variável, da longevidade, é medida pela esperança de vida ao nascer. Para isso, o cálculo é hipotético e leva em conta o número médio de anos que a pessoa pode viver naquela localidade no ano da pesquisa. As condições de saúde são referências nesse critério.


A educação fala: um olhar mais atento é necessário

Numa observação global, o quesito com a menor nota foi o da educação: 0,615. Tal fato se dá devido à falta ou a pouca escolaridade da população adulta.

O Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013 mostra a fatia da população frutalense que necessita atenção especial: pessoas que têm entre 18 e 25 anos de idade. Pelos dados divulgados no site www.pnud.org.br, menos de 50% da população com 18 anos ou mais tem o ensino fundamental completo. A situação se agrava quando o que é medido nessa faixa etária é o ensino médio completo. Apenas 37,37% da população conclui o ciclo de ensino.

Sobre isso, o historiador e professor dos ensinos fundamental, médio e superior, Marcelo Leolino, 33, atenta para a ausência dos alunos na escola entre o 6º e 9º ano: “Do 1º ao 5º ano a educação é bem atendida em Frutal. Mas eu percebo que a partir do 6º ano o número de alunos, principalmente os homens, começa a diminuir. No ensino médio isso é ainda mais gritante. É um dado sério e precisa ser discutido pela gestão municipal. Ainda que seja uma responsabilidade do Estado essa parte do ensino em Frutal (o fundamental e médio), nós temos que gritar e mostrar que existe um problema”, afirma.

O Secretário Municipal de Educação, José Luiz de Paula e Silva, diz conhecer os problemas, mas ressalta que a partir do 6º ano do ensino fundamental até o ensino médio, a educação em Frutal é responsabilidade do Estado: “O que a gente percebe é a tentativa de um compromisso com as famílias em manter as crianças na escola. Essa fase da adolescência, quando o jovem sofre mudanças tanto físicas quanto psicológicas, necessita de uma atenção especial. A gente pede isso por parte do Estado e eu percebo que, aos poucos, há uma melhora”, conta José Luiz.

Além desses jovens que na maioria das vezes deixam a sala de aula por necessidade de trabalho, ou porque fora da escola as possibilidades são muitas, a prefeitura busca resgatar o público mais velho para dentro da sala de aula.

Frutal ainda tem por volta de 3000 analfabetos no município e isso, claro, é um fator que afeta na qualidade de vida das pessoas: “Eu gostaria de salientar que a prefeitura tem vagas, tem material especial e salas de alfabetização. O que a gente nota, às vezes, é que até por vergonha, as pessoas deixam de nos procurar e isso é preocupante. Então, quem estiver com o jornal em mãos no momento e conhecer alguém nessa situação (analfabetismo), pode nos procurar que nós temos como ajudar”, ressaltou o Secretário.

Ainda sobre educação, o professor Marcelo faz algumas considerações que dizem respeito justamente ao público mais velho que não teve tantos estudos. Segundo ele, isso influencia na criação dos filhos e, por fim, no desenvolvimento do país: “Nós precisamos admitir que nosso ensino é ruim. Não em Frutal, mas em todo o Brasil. Precisamos admitir isso. Esse problema não vai ser resolvido do dia para a noite. Leva toda uma geração. Por exemplo, na minha família eu sou o primeiro com ensino superior e mestrado. Antes, nós olhávamos para nossos pais e as nossas referências ou instruções, eram um tanto confusas. O meu filho vai ser melhor instruído.

Isso significa dizer que, em vida, os filhos das pessoas da minha geração jamais vão ultrapassar os pais em conhecimento e assim eu acredito que vai ser. Na sociedade de hoje não há mais espaço e nem tempo para quem não esteja vinculado à uma instituição de ensino. Ao meu ver, esse processo é o caminho para a melhoria, mas leva tempo”.


Vive-se mais e a renda também aumenta

Nos quesitos longevidade e renda, as notas da cidade foram mais altas. 0,865 em longevidade representa que as pessoas vivem mais em Frutal e isso pede uma estrutura municipal adequada. O idoso necessita de atividades e ações para não ficar à margem da sociedade.

Atualmente a Prefeitura Municipal, junto do Governo Federal e através da Secretaria de Promoção Humana desenvolve o Projeto Feliz Idade que funciona todas as manhãs na Rua Senador Gomes da Silva, número 1235, onde era a casa de festas Mutirão. O objetivo é proporcionar atividades de lazer, educação, artesanato, esportes e encontro com pessoas da mesma idade. É onde os velhinhos já aposentados e sem muitos afazeres podem se encontrar e distrair a mente.

Frutal hoje, segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano, tem 4492 pessoas com 65 anos ou mais. De acordo a secretária de Promoção Humana do município, Ana Cláudia Brito Marchi, o projeto Feliz Idade que atende 140 idosos todos os dias é suficiente e colabora na qualidade vida dessa população: “Pelo que percebemos o projeto está adequado para a nossa demanda. É importante lembrar que não são apenas 140 pessoas. 140 é o número de vagas que nós temos, mas eu afirmo: tem gente que não falta nenhum dia. É um momento do dia que eles se distraem”, relata.

Ana Cláudia ainda ressalta que se houver aumento na procura de idosos pelo projeto ou por qualquer outra assistência, a secretaria vai tomar as providências necessárias: “Hoje nós entendemos que o serviço supre as necessidades do público. Antes atendíamos 60 idosos, agora já são 140, então, se for necessário, nós pensaremos na melhor maneira de atender os nossos idosos”, conclui.

A renda do município recebeu a nota 0,730. Atualmente a renda per capita é de R$752,01 e, ainda segundo os dados do Atlas de Desenvolvimento Humano do Brasil, houve uma queda no Índice de Gini – responsável por medir o grau de concentração de renda – de 0,56 para 0,47.
Esses dados mostram que mais pessoas passaram a trabalhar em Frutal nos últimos anos. Com isso a porcentagem de pessoas pobres que no ano 2000 era de 13,72, atualmente é 5,28% da população.


É necessário avançar mais e o IDHM pode ajudar

A divulgação de índices como o IDHM serve no auxílio para o planejamento dos gestores da cidade. Isso é o que pensa o professor Marcelo: “Eles (índices) ajudam a demonstrar problemas, mas ficam longe de demonstrar a realidade do município. A própria ONU que criou o IDH sabe disso. É um indicador bom e como todo indicador ele deve auxiliar a tomada de decisão, mas existem outras maneiras de verificar a realidade municipal. Maneiras até mais aprofundadas”, afirma.

No comparativo com os anos anteriores, Frutal, de 1991 pra cá, de acordo com o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil, melhorou o seu IDHM em 41,47%, mas o número ainda está abaixo da média nacional (47, 46%) e também do crescimento estadual que é de 52,93%. Ou seja, os indicadores mostram avanços, apontam problemas e servem de ajuda, mas não são totalmente satisfatórios para a cidade.

“Existe certo progresso e uma boa intenção em melhorar o município, o que falta é capacitação pra isso. Eu vejo muitos gestores com boa vontade, mas antes de “meter a mão na massa” é necessário entender a massa, pensar a massa. Isso vem com educação. Então, eu penso que a partir do momento que melhorarmos nesse setor, melhoraremos em todos os outros. Pesquisas mostram que o cidadão bem educado tem mais saúde, se orienta melhor, resolve mais problemas, gerencia melhor sua vida pessoal, consegue ter melhor discernimento das coisas, consome produtos melhores, trabalha e produz melhor. O cidadão bem educado é benéfico não só pra ele, mas pra toda a sociedade”. Os números do IDHM mostram que o avanço existe e não deve ser deixado de lado, mas ainda há muito a ser feito. Ao que parece, tudo tem início na educação. E a melhora desde índice levará a um ganho também nos demais, o que fará Frutal ultrapassar a média nacional e se tornar, de fato, uma cidade com alto índice de desenvolvimento humano.