Por Priscila Minani
É frito. Em época de obsessão pela silhueta há quem prefira o assado, mas o frito é, cá entre nós, o tradicional e verdadeiro. Feito com uma massa fina e leve, resultado da fusão entre farinha de trigo, óleo, água e uma pitada de sal. Pode ser consumido em qualquer época do ano e agrada a todos os gostos. Eis aí o tão apreciado pastel.
O alimento é típico da cultura chinesa, nacionalidade que apresentou a delícia ao Brasil. Em pouco tempo, foi transformada em uma comida genuinamente brasileira. Do pastel de “vento”, composto só pela massa, passando pelos tradicionais, queijo, carne, frango, palmito, até os mais variados e elaborados recheios, poucos tem a coragem de recusar um bom pastel.
O recanto do artista
Definitivamente pastel é bom, e aqui em Frutal é possível encontrar uma pastelaria com um “Q” a mais. Chegar até ela é fácil: parta do Calçadão, ande dois quarteirões no sentido avenida Euvaldo Lodi, e logo em seu começo você chegará na conhecida Pastelaria do Show.
Localizado no eixo de Frutal, é numa área de aproximadamente 6 metros quadrados que se divide um espaço de trabalho e cultura. O ambiente é de uma simplicidade monástica. Uma panela com óleo. Uma geladeira. Um freezer. Potes com recheio. Molhos. Massa para pastel. Instrumentos de trabalho que se separam da clientela por um modesto balcão. E a atenção e carisma que Show tem com cada pessoa que passa pelo seu cantinho. Uma barraca pequena e simples, mas que faz a alegria dos clientes. O que ocorre também porque há um diferencial no trabalho que seu dono exerce. Além de suculentos pastéis, o lugar conta com uma atração especial destinada à clientela.
É um instrumento de cordas friccionadas. Composto por quatro delas. É pequeno. Apoia-se no ombro. Considerado o mais agudo dos instrumentos de sua família. Na antiguidade, teve uma versão semelhante à atual, porém com outro nome, utilizada por povos como os gregos e egípcios. Mas foi um italiano que deu vida a esse instrumento musical. Já deu pra adivinhar o que é, não? Eis que surge o violino.
Tal descrição se fez necessária porque na pastelaria do Show é possível uma apreciação dupla, proporcionada pela parceria pastel – violino. Soa exótico, não? Em uma cidadezinha do interior mineiro, comer pastel ouvindo música clássica pode até não ser totalmente estranho, mas é, no mínimo, diferente.
O homem Show
Ernane Soares Reis, 38 anos. É esse o nome de batismo do personagem Show. O apelido surgiu da atitude espontânea de pessoas que passavam pelo local e o chamavam assim. Pelo fato da pastelaria, a princípio, não ter nome, decidiu titulá-la Pastelaria do Show. O estabelecimento existe há seis anos e é fruto de um sonho que Reis sempre teve. Ele via na televisão jantares finos nos quais pessoas apreciavam boa música e sonhava em proporcionar isso aos seus clientes. Tendo em mente esse interesse, foi em busca de aprender a tocar violino e há seis meses a atração é sucesso. Show diz estar homenageando e dando atenção às pessoas que o frequentam, além de transmitir carinho e cultura.
Natural de Tocantins, mas mineiro desde os cinco anos, a figura dessa história diz que tudo que é novidade é sucesso, mas que no começo as pessoas estranharam a parceria. “Havia timidez e até achavam que eu era maluco, mas hoje as pessoas vêem de outro ângulo porque quero mostrar que elas são importantes e a própria música manifesta isso.” Tenta agradar todos os públicos, tocando diversos tipos de música, pois considera o cliente o seu maior patrimônio. Mas por que escolher justamente o violino? Show tem a resposta. “O violino é o único instrumento que tem alma. É um instrumento que alegra todas as pessoas que ouvem. Que não dói no ouvido, transmite paz, aconchego, afeto”.
O proprietário de estabelecimento tão diferenciado tem notável paixão por aquilo que faz. No início, pensou em construir uma Rede de pastelarias na cidade. Conseguiu adquirir até a terceira, mas, juntamente com novos pontos, surgiram novos problemas. Show pretendia fabricar somente a massa, matéria-prima de seu trabalho, e não os pastéis em si. Por fim, com a responsabilidade de desempenhar bem o seu papel, decidiu fixar somente um ponto da pastelaria para que pudesse se dedicar à música e tratar atenciosamente seus clientes.
Música no ar, dinheiro no bolso
Voltando à atitude inusitada de conciliar violino e pastel, Reis afirma que as vendas triplicaram depois que o show começou e atraiu não só os frutalenses, mas também os universitários de outras cidades que aqui vivem. Muitas pessoas vão até o local pela pura curiosidade de conferir de perto a real existência do violino e acabam por não resistir à principal atração. Outras chegam tristes ou cansadas após um dia de trabalho, e ao se sentar para degustar a delícia, são surpreendidas pela educação e musicalidade de Ernane e saem de lá visivelmente mais felizes.
Sendo por qual motivo for a pessoa se dirige ao local, é certo que todos se sentem bem, pois não há restrições do público para um lugar que oferece desde o simples e saboroso pastel, até a refinada música clássica num toque de violino.
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