Por Lausamar Humberto
“O homem que sonha com a eternidade não sabe o que fazer numa tarde de sol de domingo.”
Tememos a morte. Se não a nossa, tememos por nossos pais, por nossos filhos, por nossos irmãos, por nossos amigos, por todos a quem amamos. Apesar de ser um evento certo e incontornável, o simples pensar na morte nos angustia e por isso procuramos sempre evitá-la em nossas conversas e reflexões.
Citando Ariano Suassuna, em toda a sua história o homem trava um duelo com o seu fim irremediável. A crença em uma alma imortal, bálsamo que nos é dado por quase todas as religiões, é uma trincheira importante desta batalha. À fragilidade de nossas carnes, opomos uma alma inquebrantável.
Agimos assim porque é difícil imaginar não sermos nada. Isso abala a importância que nos damos. Como tudo aquilo que construímos, tudo o que somos, num dia qualquer pode se tornar apenas cinzas? A idéia de nossa aniquilação, o grande enigma do que virá depois, se é que virá, é pensamento que nos atemoriza. Contra isso, esperneamos.
A cada dia vivemos mais. Os avanços tecnológicos, a alta qualificação da medicina moderna, as possibilidades da biotecnologia, todos estes fatores são os responsáveis por termos avançado de uma expectativa de vida de 50 anos no início do século passado para 80 anos nos dias atuais. E não é sonho pensar em uma expectativa de vida de 120 anos até o fim deste século.
Mas a finitude nos irrita. Isso explica o fascínio causado por assuntos como a clonagem. A simples possibilidade da construção de outro ser à nossa imagem e semelhança nos deixa excitados.
Sabemos que a criação de bebês clonados é uma possibilidade científica real. Ainda que hoje o que se conseguirá será apenas uma cópia idêntica fisicamente ao ser clonado, já há aqueles que vislumbram a possibilidade de clonagem da memória e da personalidade do homem original. Seria a conquista da ressurreição vinda pela genética, não pela religião.
Algo que técnicas como a criogenia também prometem. Pessoas com doenças incuráveis seriam congeladas até que a ciência descubra a cura para suas moléstias e elas possam ser reanimadas.
Cabem as perguntas: por que tanta busca por uma prolongação inesgotável da existência? Estamos nos fazendo merecedores de todos os prazos ganhos? Evoluímos em comportamento assim como evoluímos cientificamente? As infinidades de erros que nos são escancarados dia-a-dia, cometidos por nós, em todas as partes do mundo, não apenas reforçam a nossa mediocridade? É ela que queremos perpetuar?
De minha parte, não pretendo ser clonado, nem congelado, muito menos viver indefinidamente. Que venham os anos que me couberem, e que sejam intensos e úteis, e sei que já é esperar demais.
Crise de identidade
Tenho um sério problema com fisionomias. Esta dificuldade de me lembrar das pessoas já me colocou em algumas situações verdadeiramente constrangedoras. É muito comum pessoas me cumprimentarem, conversarem comigo e eu não ter a menor idéia de quem elas sejam. Como minha discrição ou timidez me impedem de perguntar o nome das ditas cujas acaba que tenho longos papos com completos desconhecidos.
Dias desses estava revendo o álbum da minha formatura em jornalismo ocorrida no longínquo 1998. Tomei um susto. Na foto que mostra toda a turma, um monte de estranhos. Não que eu não me lembre do nome daquelas pessoas. Minha disfunção é bem pior. Eu simplesmente não me lembro de um dia tê-las conhecido. Convivemos praticamente todo santo dia durante quatro anos e é como se elas nunca tivessem passado pela minha vida. O leitor já deve estar imaginando: esse cara não bate muito bem. Tendo a concordar.
Mas o episódio mais exemplar deste meu probleminha com rostos se deu ainda na infância, quando tinha 12 anos. Naquela época – explico para os mais jovens – tirar uma foto 3x4 levava algum tempo. A revelação não era imediata como hoje. Não me lembro por qual razão, precisei tirar tal foto.
Um dia depois, voltando da aula no Estadual, passo no Foto Aurélio e retiro minhas fotografias. Ao chegar em casa, observando-as, não gostei de minha aparência. Mostrei pra minha mãe, que ficou espantada. Pensei: nossa, tô feio mesmo. E minha mãe: Mas Lausamar, este não é você. ??? Como não?? Eu vi as fotos. Eram minhas.
Não eram. Eu tinha pegado as fotos de outro garoto. Parecido comigo, mas não era eu. E a vergonha de voltar no Foto para trocar...Constrangido, imaginando que o atendente por certo me imaginaria um débil mental, disse timidamente que havia pegado as fotos erradas. Uma senhorinha de cabelos brancos que estava ao meu lado viu as fotos e notou: É meu netinho. Os óculos dela eram mais eficientes do que os meus olhos.
Aliás, pensando bem, quem sabe o uso de óculos não resolva meu problema? Preciso agendar uma consulta com o Alexandre Canhada.
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