Segundos que parecem horas

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Por Narcio Rodrigues

Todo mundo tem a impressão de que o tempo passa rápido. O tempo corre. O tempo voa. A sensação é de velocidade no relógio. Há dias que, quando vemos, já estamos de noite. Há momentos em que olhamos na folhinha e vemos que o fim do ano já está chegando e que nem vimos os dias, semanas, meses passarem...

A vida é isso mesmo. Somos presas do relógio, a armadilha do tempo está sempre pronta para nos pegar e os ponteiros sempre andam mais rápido do que nossa vontade e nosso desejo. Veja só: já estamos em agosto e lá se foram sete meses de 2011 e parece que estávamos comemorando o Natal ainda anteontem.

Mas há também o inverso. Há momentos que parecem não passar nunca. Parecem ficar congelados no tempo. Parecem se eternizar em segundos que nunca passam...

Eu vivi uma situação assim. Sai daqui, do Brasil, para um encontro sobre Hidroex em Moscou, com o grande Mikhail Gorbachev, na sede da Fundação Gorbachev na capital russa. Viagem longa. Longuíssima. Passei primeiro em Paris, acertei pontos com a Unesco. Depois, estive em Delft, na Holanda e, de lá, fui a Genebra, onde me sentei com o presidente executivo da Green Cross Internacional (que tem em Gorbachev seu presidente de honra) para discutir um acordo de cooperação para realização dos Diálogos da Terra em Minas Gerais e para apoio junto a Unesco para os avanços do Hidroex.

Sai de Genebra com um documento assinado pelo sr. Alexander Likotal e o espaço aberto para as assinaturas do Governador Aécio Neves e de Makhail Gobarchev. Cheguei em Moscou. Agenda pesada. Do hotel até a Fundação Gorbachev, duas horas batidas de carro. Longe mesmo. Era a segunda vez que iria ser recebido por ele.

Cinco minutos depois do horário marcado para a audiência, entra o presidente Gorbachev, com cara de poucos amigos. Ele não fala inglês, eu muito menos. E lá estávamos eu e ele diante um do outro, a mercê dos intérpretes tentando passar sentimentos do português para o russo (intermiado pelo inglês) e do russo para o português. Audiência difícil. Poucos sorrisos, nenhuma brincadeira e eu tenso como o cão...

Falei da minha honra em que estar na sua presença, do quanto me inspirei na sua luta pelo meio ambiente para buscar a criação do Hidroex e o quanto devia a ele por ter me apresentado para a direção de Hidrologia da Unesco, o que acabou por resultar na criação do nosso instituto mais tarde. Entreguei a Medalha do Mérito legislativo da Câmara dos Deputados e lhe estendi, com as mãos, o documento em que esperava ver aposta a sua assinatura (para documentar perante a História aquele momento).

Gorbachev franziu a testa, olhou sério para o meu lado e disse em tom muito seco (que eu não entendi, por que era em russo) a frase que congelou o tempo:

- Eu não posso assinar esse documento.

Quando me foi traduzida sua frase, o tempo parou. Em vinte segundos ou pouco mais de meio minuto, eu vivi um século. Passei a me lembrar de todo esforço, de toda empreitada, da correria, da agenda apertada, dos riscos - de tudo que representava aquele esforço, agora inútil, de ir buscar uma assinatura. E lamentei a perda de tempo... Pensei: tô no sal (para não dizer uma palavra mais chula). Foi uma eternidade de sofrimento.
De repente, ele se volta para o meu lado, aponta o bolso do meu paletó e completa a sua frase, agora risonho e como quem acaba de fisgar uma presa na sua armadilha:

Repete a frase e a conclui:

- Eu não posso assinar esse documento... a menos que o senhor me empreste a sua caneta...

(Seu sorriso aberto descongelou o tempo. Tempo, essa máquina de tortura de qualquer ser humano)