A anatomia de uma usina

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Por Rafael Del Giudice Noronha e Lausamar Humberto


C6 H12 O6. A fórmula da glicose. Essa equação está presente na maioria dos nossos estudos enquanto freqüentamos o ensino médio. Depois ela cai no esquecimento ou é bem pouco lembrada. Porém, outros, adoradores dos cálculos equacionados e das reações, levarão suas vidas trabalhando intimamente com essa equaçãozinha que um dia já tirou o sono de muita gente.

Mas quem são esses adoradores? Onde eles estão? Nas usinas? Bingo! A região de Frutal tem diversas usinas. Lá, trabalham químicos, técnicos químicos, engenheiros elétricos, mecânicos, agrônomos, administradores de empresa, técnicos em álcool e açúcar, colhedores, tratoristas, lavadores, borracheiros, porteiros, motoristas, técnicos em segurança do trabalho, cozinheiros. É grande o número de trabalhadores, diretos ou indiretos que uma usina tem. A organização é praticamente a de uma pequena cidade. E todos em volta de uma estrutura que gira em torno de açucares, dos quais a glicose é apenas o membro mais popular.

 Para conhecer melhor o que acontece nesse local complexo do qual muito se fala, mas pouco se sabe, passamos um dia na Usina Cerradão, onde acompanhamos o caminho percorrido pela cana-de-açúcar desde o corte até se chegar ao açúcar que compramos no mercado e ao álcool que abastece nossos carros.


A Usina Cerradão


Localizada na Rodovia MG 255 no Km 30, a Usina Cerradão existe desde o ano de 2006 e atualmente tem, na sua área agrícola, plantações espalhadas por cidades da região como Comendador Gomes, Fronteira e Itapagipe.  São 1290 trabalhadores que se revezam todos os dias, a maioria em turnos de 8 horas, ou seja, a usina não para.

A estrutura impressiona. Indústria, oficinas, refeitório, vestiários, laboratórios, salas de reuniões, viveiro e uma frota com cerca de 150 veículos próprios, que vão desde carros e caminhões, até transbordos e colhedoras.

Andando por todos os setores da usina uma característica fica evidente: a baixa faixa etária dos funcionários, que deve girar em torno dos 30, 35 anos. A aposta em novos profissionais resulta em líderes ou chefes de setores bem jovens.

 Apesar do tamanho, e o conseqüente número elevado de funcionários, não se vê nenhuma pessoa fora da sua função ou andando à toa pelas ruas, que ainda não são asfaltadas e têm características de uma usina. O cheiro, o chão coberto com resíduos de bagaço, tudo faz lembrar ou aguçar os sentidos sobre o que há ali: cana-de-açúcar.

Ocupando um grande espaço e com este mundaréu de gente, a comunicação poderia ser um problema, mas ocorre o oposto, ela é exemplar. Por aparelhos eletrônicos, rádios e outros utensílios, os setores se comunicam a cada instante, o que diminui a perda de tempo em certas tarefas. Esta comunicação por aparelhos poderia empobrecer a convivência, o corpo a corpo entre os funcionários. Não é o que se percebe. As pessoas se conhecem, se cumprimentam, sabem os nomes uns dos outros.


A jornada agrícola


A cana-de-açúcar passa por várias etapas até ser transformada em combustível e alimento. Na primeira delas - a plantação - na maioria das vezes são feitos contratos entre a usina e os fornecedores de cana para o uso da terra. O fornecedor pode “arrendar” ou até mesmo plantar, cuidar e colher a cana para depois vendê-la à usina.

Passado o tempo de crescimento, que geralmente varia entre um ano e um ano e meio, é feita a colheita. Na usina Cerradão, 90% da colheita já é mecanizada, enquanto que a colheita feita manualmente se destina a casos isolados, como nas áreas dos terrenos que não permitem o acesso das colhedoras.

Esta colheita é feita por frentes de trabalho. Acompanhamos a frente 3, que conta com 3 colhedoras, 6 transbordos, 5 caminhões e 1 trator e seus operadores. Estes trabalhadores ganham salários fixos, mas as frentes possuem metas diárias de produção que geram bonificação. 

Wellington Fernando Parolezi tem dois anos de serviço na usina, começou como tratorista e hoje é operador de colhedora. Gentilmente nos cedeu uma carona enquanto cumpria o seu turno de 8 horas de serviço. A sensação que se tem na cabine onde Wellington trabalha é de estranhamento. Cinco metros separam o operador do chão, que tem desníveis, buracos, curvas e precipitações. “Se você acha que é estranho, não viu nada. Em alguns canaviais a gente chega a ficar com a colhedora de lado” comenta Wellington, enquanto passa com o veículo por uma fileira de cana-de-açúcar, chamada de “rua”.

Junto da colhedora, trafega também um transbordo. Na colhedora existem ferramentas que abrem a passagem, jogam a cana para baixo, onde ela é cortada. Depois disso há um elevador que tem a função de mandar essa cana para os transbordos. Depois de cheios, são levados até a usina, passam pela balança, pelo laboratório e entram na indústria.


A chegada à indústria

O caminhão carregado chega à indústria, passa pela balança e pelo setor de logística, onde há um rigoroso e complexo sistema de monitoramento dos veículos. Os computadores de bordo apontam sobre como se deu o uso do equipamento, avaliando rotação do motor, consumo, velocidade e outros quesitos pelos quais os motoristas serão pontuados. Esta pontuação influenciará no holerite.

É feito então um sorteio para que seja definido qual veículo terá de passar pelo laboratório de análises da sacarose. O laboratório é o lugar onde a cana é analisada, qualificada e direcionada. Adriana, líder do laboratório, nos apresenta um maquinário complexo. Um tubo coleta a cana dos transbordos para que seja feita uma série de análises. São 10 quilos coletados para a separação das impurezas. Após isso, 10% do que foi coletado é levado para a parte de dentro, onde será realizada a medição do pH, bem como do teor de sacarose, frutose e glicose de cada planta.

É esse teor que determina o valor a ser pago pela cana. De acordo com as medições, quanto maior o desvio para a direita no equipamento, maior a presença de sacarose, o que quer dizer melhor remuneração.

Atualmente, devido ao valor de mercado, a Usina Cerradão trabalha mais com a produção de açúcar. A cana da região tem se mostrado de boa qualidade. O solo, na opinião de Adriana, ajuda, pois as plantações passaram por no máximo três cortes, tendo assim uma boa qualidade em relação às outras partes do país, com favorável presença de sacarose.


Onde a transformação acontece

Plantio, espera, colheita, pesagem, sorteio, análise. Após todos esses procedimentos, a cana finalmente está pronta para o processo industrial.

Cortados em toletes, os pedaços de cana passam pelas moendas, que separam o caldo do bagaço. Este caldo é que vai se transformar em açúcar ou álcool. Ele percorre uma série de etapas, entre elas: banho químico, purificação, fermentação e destilação. Processo que parece simples, mas que depende de uma porção de máquinas, motores, purificadores e principalmente de calor, muito calor. Dentro de alguns equipamentos a temperatura pode chegar a 700 graus, o que preferimos não conferir tão de perto.

O caldo transforma-se em combustível e alimento, mas e o bagaço? O bagaço é aproveitado para gerar energia. Hoje, a Usina Cerradão produz 1200 toneladas de bagaço por dia e a queima deste bagaço permite a geração de energia suficiente para abastecer toda a cidade de Frutal, e há capacidade para uma produção ainda maior.


Pratas da casa, em casa

Passar um dia perambulando pelos tentáculos que existem em uma usina, permite uma série de observações. Afinal, quando você pensa em usina, sua mente certamente faz o seguinte trajeto: cortadores, queimadas, mau cheiro, caminhões pra lá e pra cá e um emaranhado de máquinas que são complexas demais. Ok, as máquinas são complexas, assim como a tentativa de explicá-las, mas o restante, não.

Para muitos trabalhadores, a Usina Cerradão é a segunda casa. Adão José da Rocha Neto é um personagem que representa bem tal afirmação. O estudante de administração tem 22 anos e começou na usina no dia 19 de março de 2008. Foi o terceiro funcionário da indústria. “Quando soube que haveria uma indústria, coloquei na minha cabeça que queria trabalhar aqui, enviei vários currículos e consegui.” O jovem iniciou no serviço com a missão de abrir buracos para a construção. Hoje é encarregado do salão de açúcar. Ele aponta como qualidade da empresa a valorização do quadro de funcionários.

Adão, nesses três anos de serviço, além da ascensão na empresa – em comparação com seu primeiro salário teve um aumento de renda de mais de 400% - obteve também conquistas pessoais. Casou-se, teve filho e em breve estará formado. Exemplo para os outros, soubemos de sua história pelo engenheiro elétrico da usina, Eduardo Henrique, o que mostra a relação próxima que há entre os funcionários.

João Pedro Pignata, 54 anos, é o gerente industrial da usina. Vindo de Pitangueiras, com 30 anos de experiência no setor, participa do projeto desde o início e é o responsável por uma indústria que tem capacidade atual para moer 2 milhões de toneladas. A meta é alcançar 3, 5 milhões já em 2015. Questionado sobre o pequeno número de funcionários que existe em cada setor da indústria, explica que a automação é a responsável por isso. A área agrícola é a que requer mais mão-de-obra, enquanto a indústria tem uma estrutura muito enxuta.


Funcionários e meio ambiente

As centenas de funcionários que circulam pelo complexo são diferenciadas pelo setor em que trabalham. Os da área agrícola usam uma camisa marrom, os da indústria, uma camisa verde. Verde que também é o tom usado pelo pessoal do administrativo. Muitos destes funcionários farão suas refeições no refeitório, que é amplo e arejado. No dia desta visita o cardápio era arroz, feijão, filé de frango empanado, bife e salada. A alimentação é de responsabilidade de uma nutricionista.

A usina implantou um projeto de coleta seletiva do lixo. Por toda a área estão espalhados os recipientes que receberão estes resíduos. Há ainda o cuidado com o uso da água. Nestas plantas industriais modernas o gasto é pouco, já que há um sistema de reaproveitamento da água utilizada na indústria.

Outro exemplo positivo na questão ambiental, e que é o orgulho de Otávio Queiroz, engenheiro agrônomo, é um viveiro que tem atualmente 20 mil mudas. “Nosso viveiro tem espécies nativas. As sementes são compradas, plantamos e cuidamos no viveiro e depois são replantadas. Temos capacidade para 50 mil mudas, em breve, atingiremos essa meta.”, conta. Este projeto é em parceria com a Basf e fornece mudas para projetos de reflorestamento da própria usina e ainda beneficia fornecedores e instituições. Dentre as 20 mil mudas, estão espécies como umbu, farinha seca, jatobá graúdo e ipê roxo.


O fim do expediente


O relógio marca 17 horas, pelo menos para nós e alguns funcionários, o dia chega ao fim. A usina não parará.

É a hora de subir ao ônibus e percorrer os 37km que separam a indústria da cidade de Frutal, não sem antes nos despedirmos de Leandro, Rodrigo, Everaldo, Ademir, Suellen, Adriana, Rodrigo, Eduardo, Adão, Wellington, Rafael e de outros inúmeros funcionários que nos permitiram conhecer e entender esta pequena cidade que funciona todos os dias.

Muitos outros trabalhadores irão chegar para continuar tocando este empreendimento que produz açúcar, álcool, energia, empregos, renda e possibilidade de mudança.