Abobrinhas, tomates, Gran Torino...

Posted in

Por Lausamar Humberto

Sou uma criatura de hábitos, de rotinas. A quebra da normalidade sempre me angustia, desconforta. Acomodação, dirão uns. Medo do novo, dirão outros. É um jeito de se levar a vida, direi eu. Nem melhor, nem pior. Meu jeito.

Dentro destas rotinas está o domingo. O meu jeito de viver o domingo. E o meu domingo perfeito certamente será muito diferente do domingo perfeito de quase todos: céu cinzento, frio, chuva fina, fórmula1 de manhã, almoço com amigos, jogo do Flamengo à tarde, Manhattan Connection à noite, e o sono dos justos.

Nesta rotina de domingo há a inescapável visita à feira. A compra de abobrinhas, tomates, frangos caipiras, as pechinchas da hora da xepa, o pastel, a conversa com os amigos, os cumprimentos aos conhecidos. Sempre igual, e sempre muito bom.

E, no meio desta rotina, há a sessão cinema que, na falta de um, torna-se sessão DVD. Muitas vezes, é pipoca sem compromisso, entretenimento puro. Em outras, a profundidade é o prato do dia. Nem sempre os filmes entregam o que prometem, mas quando o fazem é deleite puro.

Foi assim um domingo com Gran Torino. O filme de Clint Eastwood, disponível nas locadoras já há bastante tempo, é uma pequena obra-prima. Pequena porque filme de baixo orçamento, feito em pouco mais de um mês. Só que Clint hoje é um arquiteto da imagem com pleno domínio sobre arte que exerce. Como a idade fez bem ao velho durão de Hollywood. É o grande nome vivo do cinema clássico.

Cinema não é fábula, não precisa ter lição de moral ao seu término. Estes filmes que pretendem passar uma mensagem edificante quase sempre são apenas chatos. Já Gran Torino é cinema de outro calibre e nos dá uma lição de redenção, de tolerância, de modo seco, direto. É um soco bem dado no fígado.

Passei o filme para a turma na qual dei aula de ética jornalística. E o que tem a ver este filme com ética jornalística?, perguntarão os idiotas da objetividade. E quem disse que jornalista tem que ler ou ver apenas temas ligados ao seu mundinho?, digo eu.

Após o término, havia um silêncio respeitoso. Conseguir um silêncio, ainda por cima respeitoso, de uma sala de universitários não é tarefa fácil. Mas as pessoas reconhecem quando estão diante de uma grande obra de arte. Era o caso. As garotas da sala estavam com os olhos vermelhos pelo final impactante. É uma obra de alto calibre. Se ainda não viu, veja.


Lausamar Humberto, jornalista e professor universitário, é editor do 360.