Por Patrícia Paola Almeida
O dia de trabalho começa às cinco e meia da manhã. Ainda está escuro quando esses trabalhadores estão a postos, com suas vassouras, pás e disposição. O trabalho dos garis em Frutal, assim como na maioria das cidades, ainda é pouco reconhecido e enfrenta dificuldades com o preconceito e discriminação, mas mesmo assim, é possível encontrar trabalhadores sorridentes e orgulhosos pela função.
Para conquistar uma vaga para a função de gari, o candidato precisa fazer uma prova de nível de ensino fundamental. Os aprovados passam por um curso de treinamento e enfim estão prontos. O serviço dos garis divide-se entre coletores e varredores.
Atualmente, Frutal conta com cerca de 75 profissionais da área, divididos de acordo com as necessidades e o tamanho de cada região. A cada quarenta quarteirões dois garis são enviados. Essa divisão acontece de acordo com a proximidade com a casa do gari, assim não precisam de transporte para conduzi-los até o local de trabalho. Em regiões como o XV de Novembro, o serviço de varrição é feito todos os dias, e eventualmente com maior número de profissionais, já que o local é apontado como um dos mais sujos da cidade. Já locais pequenos, como o bairro Frutal II, o serviço é feito a cada duas semanas e apenas por um profissional da limpeza. Já a coleta do lixo, é feita a partir das 19hrs e prossegue até o horário necessário para atender todos os bairros da cidade.
Por que Gari?
O nome gari é uma homenagem a Pedro Aleixo Gary, primeira pessoa a assinar um contrato de Limpeza pública com o Ministério Imperial, organizando assim, em 1876, a remoção de lixo das casas e praias do Rio de Janeiro. Vencido o contrato em 1891, entrou seu primo, Luciano Gary. Um ano após, a empresa foi extinta e inaugurada a Superintendência de Limpeza Pública e Particular da cidade, realizando um trabalho muito além do proposto em termos de limpeza pública. Os cariocas, acostumados com a limpeza das ruas após a passagem dos cavalos, mandavam chamar a turma do Gary. Aos poucos o nome se generalizou e até hoje são chamados assim.
Por conta da divisão do trabalho feita a partir do local da residência de cada gari, não é difícil encontrar irmãs, mães e filhas, maridos e esposas, trabalhando juntos.
A maioria do time de limpeza é formado por mulheres. Todos dizem gostar da profissão. A senhora Ivanir Alves Silva, que trabalha como gari há 19 anos ao lado do marido Silvestre dos Reis Silva, afirma que por sua vontade, todas as filhas trabalhariam na área, mas conta que as moças casaram e seguiram outros caminhos, mas que ela e o esposo querem se aposentar nessa função, que é algo que gostam de fazer, ficam próximos e oferece estabilidade. Somando o salário com as horas extras que fazem frequentemente, o salário é suficiente para suprir as necessidades da família e para ficarem tranquilos, afirma Silvestre. O casal trabalha sorridente, trocam olhares e brincam um com o outro, cumplicidade e companheirismo que encanta.
A profissão pouco reconhecida submete, ainda, esses trabalhadores ao preconceito e discriminação. Uma queixa comum entre eles é a dificuldade de encontrar um banheiro durante o serviço. Os estabelecimentos comerciais não permitem que eles usem, e por vezes, nem que entrem no local. Outro problema é que muitas pessoas não respeitam o trabalho, e que mesmo quando terminam de varrer uma área, as pessoas jogam lixo na rua, varrem suas casas e ao invés de recolher a sujeira, atiram nas calçadas. Reclamam ainda do período das eleições, contam que é difícil limpar a cidade, e que os políticos se enchem de propostas de mudança e melhoria, mas as campanhas deixam a segunda-feira pós-eleição com um manto de sujeira pelas ruas.
Magali Alves Costa, diz que adora o serviço, que ama varrer as ruas e colaborar para a cidade ficar mais bonita e conta que o preconceito existe, que não é raro serem ofendidas pelos moradores, mas diz que dribla isso:"sempre existe um engraçadinho, mas é só não dar bola que fica tudo bem". A população, por vez, cobra o serviço, mas não colabora e nem respeita.
Mas nota-se que a postura da população em relação aos garis é um problema muito mais profundo, já que quem deveria contribuir com a formação das opiniões demonstra desprezo por esses profissionais. O caso aqui lembrado é o infeliz, inoportuno e ofensivo comentário do jornalista da BAND, Boris Casoy, que no natal do ano 2009, por uma falha técnica, lançou observações carregadas de preconceito, ignorância e arrogância, ao vivo, após imagens de garis desejando um bom natal e um feliz ano novo. O caso rendeu desculpas públicas e manifestações de punição ao comunicador.
Inclusão social
A prefeitura de Frutal, junto com a APAE (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) e com a APAC (Associação de Proteção e Assistência ao Condenado), desenvolve projetos de inclusão no mercado de trabalho desses meninos, meninas e homens que buscam fazer parte realmente da sociedade.
Betânia Galina e Renata Fernandes Gomes, coordenadoras do programa do Núcleo Emprego na APAE, afirmam que essa inclusão é fundamental para o desenvolvimento desses jovens e dedicados trabalhadores. No inicio desse projeto, elas enfrentaram certa resistência dos familiares, que receavam que os meninos não fossem dar conta do serviço. Mas depois de alguns esforços, eles provaram o contrario. Desenvolveram e estão radiantes. Recebem pelo trabalho e agora tem um dinheirinho para comer um lanche no final de semana, comprar roupas ou uma mochila do Batman, que foi exibida por Tiago Amorim Andrade de 19 anos. Para alguns meninos, a psicóloga Renata ajuda a administrar o salário, ensinando-os a economizar.
Os internos da APAC colaboram prestando serviços quando é necessário, por exemplo, limpar a cidade após uma tempestade. Recolhem galhos, tapam buracos, ajudam na limpeza. O responsável pelo serviço dos garis conta que acha o trabalho fundamental, mas que assumem o compromisso com a associação e com os órgãos de segurança de cuidar desses homens, que às vezes pedem para visitar um amigo ou parente, mas o pedido não pode ser atendido. Diz também que nunca tiveram problemas com esses trabalhadores, que são prestativos e responsáveis.
Tiago é o parceiro de limpeza de dona Cleonice M. de Almeida, uma doce e sensível senhora que tem sido o braço direito de Betânia e Renata e o responsável pelo trabalho dos garis nas ruas. Ela tem sido paciente, amorosa e solicita em ajudar esses meninos da APAE. Muito consciente, conta que essa iniciativa é fundamental para ajudar na inclusão desses garotos na sociedade, que quebra preconceitos e mostra a todos que são capazes. Trabalham melhor do que todos, pois alimentam uma vontade grandiosa de mostrar seus talentos e capacidade. Um dos momentos mais emocionantes junto com esses trabalhadores foi quando receberam seus primeiros salários. Comemoravam, exibiam seus cheques. Uma vitória, uma conquista na vida de cada um.
Talvez nem todos tenham a sorte de varrer o sambódromo e virar celebridade, conhecer Gisele Bündchen e fazer sucesso na Europa. Foi o caso de Renato Sorriso, que foi como ficou conhecido Renato Luiz F. Lourenço, gari que ganhou fama ao varrer o sambódromo carioca em 1997 e no meio do trabalho arriscar um samba cheio de ginga e alegria. Renato gravou comerciais com a top brasileira Gisele, ministra palestras, participou de shows na Europa, tem direito a camarote todos os anos desde o ocorrido no carnaval do Rio de Janeiro, mas não abandonou a função. Renato ainda trabalha como gari.
Os garis de Frutal sorriem para trabalhar, mesmo que seja para escapar do serviço nas fazendas, construções ou em casas de família. Levantam todas as manhãs e caminham para cuidar dessa cidade. Os homens da APAC sorriem para trabalhar e novamente fazer parte da sociedade. Os meninos da APAE sorriem e provam todos os dias que são capazes de trabalhar. E a esperança é a de maior reconhecimento, respeito e gratidão pelo serviço fundamental a todos os cidadãos.

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