Palavras sobre Samuel

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Por Narcio Rodrigues

Samuel de Souza e Silva.
Como é bom poder falar de quem a gente gosta... e gosta porque admira e respeita.
Em meados da década de 70, Frutal viveu um grande surto cultural. Era efervescente o movimento artístico, que ia da música ao teatro, nas manifestações dos festivais , no próprio Carnaval, no Corpus Christi. Era uma babel cultural a nossa cidade. Todo mundo estava, de alguma forma, ligado a um tipo de manifestação – nem que fosse, só para contestar, a arte do grafite.
Foi nesse ambiente que eu conheci Samuel de Souza e Silva, empresário, diretor da toda poderosa Malibu.
Motivado pela amizade com suas filhas – especialmente a Malu, que é da minha idade – fui parar na casa dele, como um estranho, esperando encontrar ali um industrial carrancudo (como ele parecia ser no seu escritório), um homem reacionário do ponto de vista político-partidário (era filiado à ARENA e, depois, ao PDS) e um autêntico membro da elite da cidade, distante dos assuntos do povo e da realidade local e mais concentrado nos seus objetivos materiais.
Foi um choque encontrá-lo – em sua casa – de bermudas, sorridente, alegre e aberto, nos convidando para entrarmos, para nos sentarmos, para nos sentirmos em casa.
Em casa, Samuel se desnuda por completo do empresário que foi (e que era) e assume o papel de líder de uma família e de mentor de um grupo. De repente, você se depara com ele temperando as conversas – sempre de bom humor – com um violão e uma música, interpretados em voz inconfundível e afinada, barítono da melhor qualidade, com uma seleção que nos apresenta coisas eternas como Luiz Vieira, Silvio Caldas, Orlando Silva, Francisco Alves,  etc.
Samuel foi o grande condutor de um jovem grupo que, depois, acabou por entrar na política e assumiu, nos últimos anos, os destinos de Frutal.
Ninguém me influenciou mais na atividade pública ou nas minhas preferências culturais do que ele. E isso é a mais absoluta verdade.
A casa de Samuel e D. Geninha foi o laboratório que preparou uma geração de artistas e de seres humanos para relacionamentos mais profundos e amizades mais decisivas e permanentes.
A tolerância sempre foi a palavra mágica praticada dentro da casa de Samuel. Embora fosse, à época, do PDS, ele nos ouvia atacar o Governo e combater a ditadura com a paciência dos que gostam de exercitar o contraditório. Embora fosse empresário poderoso, sempre soube entender de perto o problema da classe trabalhadora. E, embora não fosse nosso pai, nunca deixou de dar uma palavra de carinho e várias “duras” para nos corrigir a cada um, como se fosse (como é, de fato) uma espécie de “pai de todos”.
Eu me sinto assim em relação  a ele.
Meu pai morava no Chatão (na fazenda) e, quando vim morar em Frutal e trabalhar no Jornal Esquema, a minha “casa da cidade”, a minha família na cidade, passou a ser  a dele, com sua generosidade e o amor e o carinho inesquecíveis que a D. Geninha dispensa a todos nós. Ele é meu pai da cidade.
Quando fui entrar na vida pública, ouvi vários conselhos dele, inclusive alertas sobre como não me deixar levar pela “vaidade” e como me manter “íntegro” na vida pública.
Samuel é uma espécie de Vinicius de Moraes para a minha geração. Ele nos introduziu na música, no Teatro, na Literatura, na Cultura, na Política, nos tratou como se fôssemos “gente grande” e nos abriu o caminho para novos horizontes.
Depois de entrar na casa de Samuel e Geninha, e conviver com todos eles – Samuel, Geninha, Zé Neto, Ana Beatriz, Ana Maria, Maria Luiza – ninguém consegue mais ser o mesmo. Todo mundo fica obrigatoriamente melhor do que era.
Ali, eu aprendi, ainda cedo – antes dos meus vinte anos – que “a amizade sincera é um santo remédio e um abrigo seguro”.
Ainda me lembro de noites e que trabalhava no fechamento do Jornal Esquema e me mantinha sem comer durante todo o dia (o trabalho me absorvia, mas eu não tinha também nenhuma casa para recorrer e encontrar umjantar pronto) e o telefone da redação tocava as 21h ou 22h. Do outro lado, a voz macia e doce de D. Geninha, dizendo:

- Filho, tenho certeza de que você está sem comer. Vem para casa que estamos colocando o jantar na mesa.

Isso não era um convite qualquer. Nem era um convite apenas para me alimentar.
Era a manifestação de um tipo de amor que é o maior de todos.
Eu amo Samuel e Geninha, “meus pais da cidade” (da mesma forma que a D. Nenzica,mãe da Sandra e da Sirlene, também o foi), que me deram família para eu aprender a ser gente nos primeiros anos da minha juventude.
O que mais eu posso falar dele?
Samuel é um homem que por onde passou, na atividade empresarial e na política, deixou marcas e exemplos.
Samuel é um homem que eu visito sempre quando quero sentir o calor de seus conselhos, a grandeza de seu conteúdo e quando quero ouvir uma boa música brasileira (sem dizer também quando quero tomar uma cerveja garantidamente gelada)... Seu cardápio é sempre, para todos que chegam, completo.
E eu me sinto protegido na sua casa.
A ele, só posso dizer uma coisa: obrigado por existir na minha vida. Sem você, minha vida seria menor do que é...