Jornal 360 - 15ª Edição

Editorial: Investimento no diálogo

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Nesta edição do 360, o jornal traz uma reportagem sobre a difícil situação do sistema educacional. Não é apenas o ensino, não é apenas a qualidade, não é apenas mais um triste retrato da realidade. A situação chegou ao ápice. Violência e falta de respeito que nunca combinaram com a escola, agora são pensados juntos da educação. Eram opostos. Hoje, quase sinônimos.
Verdade seja dita: a violência não existe a partir de agora. E o saudosismo também não cabe. Dizer que antes era melhor, era assim ou assado, é muito fácil. Lamentar é fácil. Há a necessidade de se pensar o ensino, o investimento, a sociedade.
O governo federal aumentou o investimento em educação. Os índices de educação sobem, mas, a realidade vivida pelas instituições de ensino ainda é temerária. E culpados – acusados? Não faltam. A escola fala do desinteresse do aluno, a família da falta de estrutura da escola, os professores da não valorização. E enquanto isso os alunos seguem nas distrações da vida de quase adolescentes.
O caminho para melhorias e uma real situação satisfatória parece ser complicado de encontrar, mesmo assim, existem possíveis saídas. Uma delas, a maturidade. Maturidade de entender os problemas, maturidade e capacidade de autoavaliação de todos os envolvidos: gestores, pais, alunos e professores. Junto da maturidade, vem também a humildade para reconhecer que as melhorias só irão acontecer quando todos falarem a mesma língua. Quando cada um entender o seu papel enquanto cidadão e, mesmo com situações adversas, tentar melhorar.
Maturidade e diálogo são, portanto, pontos extremamente necessários para melhorias, reivindicações e, acima de tudo, o Brasil, Minas Gerais, ou Frutal terem uma educação de qualidade, onde o medo e a violência não continuem sendo tratados com naturalidade. Em Frutal, ainda que embrionário, o diálogo parece começar a acontecer depois dos casos e brigas. Se dará certo ou não, veremos.

Mau comportamento nas escolas: educação à prova

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Por Rafael Del Giudice e Thaiz Beltrão

A atual situação do sistema educacional brasileiro traz à tona a necessidade de uma discussão aprofundada sobre as prioridades de investimentos nacionais. Mesmo com o aumento no repasse para a educação, o Brasil ainda sofre com problemas no setor.

Segundo números da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgados em setembro de 2013, o país elevou de 5,8% para 6,1% os investimentos totais para a educação em relação ao produto interno bruto (PIB). O percentual chega a ultrapassar o de países como Hungria, Itália e Suíça, mas, ainda assim, é pouco.
Além do mau desempenho em testes internacionais, a educação brasileira vem apresentando um grave problema com consequências sabidamente ruins: o alto grau de indisciplina nas salas de aula.

Se a realidade nacional é complicada, a municipal não foge à regra. Frutal apresenta alguns problemas que merecem atenção especial por parte da comunidade e de seus gestores. Há dificuldade no relacionamento entre aluno e professor, na escola com os pais, e esse ciclo gera um sentimento de medo e descaso com a educação.

Recentemente, dois casos em frente à Escola Estadual Maestro Josino de Oliveira ganharam repercussão e chamaram a atenção não só de quem faz parte da realidade da escola, mas de todos os frutalenses. Em uma briga, marcada através das redes sociais, uma aluna foi agredida com um soco inglês. Em outro fato, os alunos rasgaram livros em frente ao prédio escolar.

Este desrespeito entre os alunos e para com a escola levantam algumas hipóteses: uns dizem que há desinteresse dos alunos, outros falam na não valorização do profissional da educação, há também quem diga que a família deve ser mais presente no cotidiano dos estudantes e ex-alunos do colégio lembram que antes havia mais rigidez e normas na escola. Mas afinal, a situação melhorou, piorou ou passou por transformações?


A educação de antes era melhor do que a de hoje?

Cinomar Lopes é diretor da escola e fala sobre o atual cenário: “hoje o aluno tem muito mais direitos em relação à escola. Antes, havia um vestibulinho para selecionar os estudantes do Estadual, hoje não. Era necessário estar de uniforme para poder entrar nas aulas, hoje não. Enfim, havia mais rigidez. Os programas de inclusão têm bons propósitos, mas acredito que houve um resultado inverso do esperado”, diz o diretor.

Ele não defende a volta do vestibulinho como forma de seleção para os alunos, mas admite que antes o interesse era maior: “o vestibulinho era, de certa forma, discriminatório. Mesmo assim, a diferença é notável. Antes havia o interesse em aprender, a obrigação da nota para passar de ano. Hoje o aluno pode progredir as séries e continuar devendo matérias, então ele pensa e age da maneira mais cômoda, porque alguns ainda não têm consciência da importância dos estudos. Nosso trabalho é de conscientização, em todos os sentidos, e esperamos conseguir atrair aquele aluno menos interessado”, comenta.

Para a professora universitária e psicóloga Renata Dias, a diferença entre o perfil dos alunos se dá também pela diferença no modelo das diferentes épocas da sociedade. Segundo ela, antes, o professor era uma das únicas fontes para o conhecimento. Hoje, há uma série de ferramentas tecnológicas à disposição de todos, e a educação deve trabalhar para se tornar interessante e compatível com os dias atuais. “Todos os esforços devem convergir a favor da educação. Com a tecnologia, não é diferente. Ela deve servir como instrumento para alcançar objetivos de ensino e aprendizagem. E pode ser bem utilizada no meio educacional tanto por alunos quanto professores desde que na medida certa”, diz.

Renata fala ainda que o discurso saudosista deve ser mais bem analisado: “antes havia a violência, mas de maneira mais sutil. Havia a violência fruto da exclusão social - somente os filhos das classes mais favorecidas economicamente tinham a oportunidade de estudar - ; a violência do autoritarismo; a violência da arbitrariedade de regras e punições”, analisa.


Investimento e diálogo: os possíveis caminhos

As transformações na sociedade mudaram também a maneira de as pessoas se comunicarem, como pontua a psicóloga Renata. A partir disso, a escola tenta mudar e evoluir, mas, sem investimento, o esforço fica restrito em poucas ações.
Segundo a supervisora do Estadual, Juraciara Matos, há orientação para os professores deixarem as aulas mais dinâmicas. “Esse trabalho é feito, mas é complicado. O giz, lápis e caderno não podem ser deixados de lados. Não é toda atividade que pode ser tratada com dinamismo, e os recursos também são poucos”, avalia.

A supervisora faz menção também aos países com elevadas taxas de qualidade de vida: “se você parar para observar, todos os lugares onde há investimento pesado em educação, há desenvolvimento, há boa qualidade de vida. Um bom professor, valorizado, motivado, pode fazer diferença por toda a vida de um estudante”, diz.

Já para a inspetora de ensino Suzete Machado, mesmo que exista investimento e qualificação, há ainda mais o que ser feito pela educação. “Quando eu penso em educação e nesses problemas que temos enfrentado, acredito que haja uma necessidade de reflexão. Se acontecem desentendimentos, se a relação é difícil, se não há motivação, o que existe é uma falha. É nossa obrigação, enquanto envolvidos com o setor educacional, parar e refletir sobre tudo isso. Não basta dizer que o aluno é desinteressado, que falta investimento ou que a família precisa ser mais presente. Além de investimentos, o diálogo é extremamente necessário”, comenta.

Suzete comenta sobre uma palestra feita em parceria com a Polícia Militar de Frutal, no dia 12 de março. O evento reuniu pais, professores, gestores do ensino e contou também com a presença do atual chefe do batalhão da polícia militar em Frutal, o tenente Leonel Gonçalves dos Santos.

O tenente aproveitou a oportunidade para sugerir a criação de conselhos escolares de segurança, onde atuariam os professores, diretores, pais e alunos. Segundo Leonel, essa seria uma forma de discutir os problemas, buscar soluções e tomar decisões mais acertadas, afinal, seriam mais vozes no debate de segurança pública.

Para Suzete, o caminho para melhorias no ambiente escolar, passa, necessariamente pelo diálogo: “Essas atividades de reunir a comunidade e discutir os problemas são de suma importância. Geralmente são poucos os pais que participam, uns trabalham, outros não vão. Mas dessa vez, até pelos últimos acontecimentos, a presença foi grande. Isso nos ajuda muito a disseminar as informações e a troca de opinião é sempre positiva”, diz.


Briga na porta da escola

Em fevereiro deste ano, uma briga entre meninas assustou a população frutalense. Segundo informações, as garotas haviam planejado tudo através das redes sociais. A confusão terminou com uma menina ferida com um soco inglês (tipo de arma branca).

Depois do incidente, a direção da escola prestou o atendimento necessário. “Nós a socorremos, mas é bom falar que o que acontece do muro para fora, não é de nossa responsabilidade. Demos o apoio necessário por ser aluna da escola e estar com o uniforme, mas situações assim fogem do nosso controle. O que fazemos é pedir o apoio para a Polícia Militar nos horários de entrada e saída, já mandamos diversos requerimentos e, na medida do possível eles nos auxiliam”, diz a supervisora Juraciara.


Alunos rasgaram livros

Outro episódio que chamou a atenção e repercutiu nas redes sociais foi quando os alunos rasgaram livros na porta da escola. Houve uma grande discussão sobre o fato. Uns diziam ser coisa normal, de quem ainda é imaturo e extravasa em alguns momentos, já outros trataram o assunto como uma falta de respeito por parte dos jovens.

Dentro da escola, segundo a supervisora Juraciara, há a orientação para a preservação do material em boas condições, para sua reutilização em anos seguintes. “O que foi destruído, era doação. Só pegou livro na escola o aluno que quis. E lá fora, eles fazem o que querem. A gente orienta e pede o cuidado com o material, mas não conseguimos fazer tudo”, avalia.

Por uma fé lúcida e livre

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Por Lausamar Humberto

Nesta época, em que questões como o fundamentalismo religioso são amplamente debatidas, a relação entre fé pessoal e fé estatal deve ser discutida.
Muito se tem falado dos males do fundamentalismo islâmico que é o que está mais em evidência, em virtude de sua virulência e fanatismo, mas não se deve deixar nas sombras o fundamentalismo judaico e cristão.
Caracterizados por um conservadorismo e tradicionalismo em relação às questões morais e culturais, os fundamentalistas se negam à modernidade política, já que o pluralismo de idéias e o respeito aos direitos humanos estão em flagrante conflito com a sua inerente estrutura autoritária.
O combate a toda forma de fundamentalismo é das mais importantes tarefas da atual geração da humanidade. O respeito religioso, da escolha e da maneira pessoal de viver a sua fé, ou de não viver fé nenhuma, é das maiores conquistas que um povo livre pode aspirar.
O Brasil é o maior país católico do mundo. Ou, melhor dizendo, é o país de maior população católica no mundo. Durante séculos, o poder brasileiro esteve intimamente ligado aos altos escalões da igreja. Somente no século XX se deu de maneira clara a separação entre Estado e Igreja. Mas as marcas desta longa convivência são fortes até hoje.
Estas marcas são muitas vezes desconfortáveis para quem não professa a fé católica. De maneira implícita ou explícita, normas que deveriam atingir diretamente apenas os católicos, atingem toda a população.
Quando assuntos como aborto,  união homossexual, planejamento familiar são discutidos, sempre há os radicais religiosos querendo impor sua visão. É claro que convicções religiosas estarão presentes nestes debates, e é normal e legítimo que seja assim, mas a tentativa de imposição de uma visão religiosa como verdade absoluta não deve prosperar.
Este é apenas um dos riscos quando se mistura fé e política. A tendência moderna é que cada vez mais estes dois fatores se distanciem, relacionando-se, mas sem se misturar. É neste aspecto que acredito que podemos evoluir. A convivência entre todos os credos brasileiros é muito boa.
A própria constituição federal impõe o respeito a todos os credos e à livre crença religiosa. Não há outro caminho. Por respeito à religião, um país não pode ser religioso.

Uma crônica de geração

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Por Alexandre de Paula

De longe, o que vemos é a imensidão. De perto, a nossa pequenez. Mais um gole de cerveja, três ou quatro palavras jogadas fora e um pouco mais de tristeza para adornar a noite e o céu de Brasília. Melancólicos, somos poetas pálidos e sozinhos de uma geração que nasceu velha e sem ter o que dizer. Às vezes, trocamos a lucidez por sonhos de grandeza e desabamos trôpegos às margens do Congresso Nacional.
A vida grave, sempre grave, assim considerada sem ênfase. Viver é muito perigoso, diziam nossos antepassados, mas não há risco para quem escolhe o caminho reto para a queda. Equilibrados na cruz da Catedral, gritamos nossa descrença e forjamos um salto rumo ao nada. Nada. Somos todos sombras de nada, à beira de. Não temos vozes, formas, versos ou canções. Artistas sem arte, poetas sem poemas, cantores sem voz.
Na primeira vez em que saltamos, o pulso acelerado nos sugeriu três ou quatro palavras de ordem. Na primeira vez em que saltamos, já sabíamos onde iríamos cair. No centro de nada, no ilusório quase risco. Não há, de fato, ousadia. Calculamos sempre o tombo, a queda e a palavra. Almejamos o chão e louvamos a ausência da glória. Mentimos. Sonhamos longos poemas, filmes brilhantes e não lineares, autoalimentamos nosso complexo de épico.
Três ou quatro elogios para três ou quatro palavras-poemas que se imiscuem no sem sentido de tudo e desta frase. Grande? Nenhum de nós será grande e há tantos que se sonham grandes que não pode haver tantos (sim, há portugueses Campos que já tenham dito isso antes). Não há grandeza na ausência de talento e no excesso de ego. Compomos ladainhas e brindamos à superioridade da nossa reflexão. Elite intelectual em um deserto de pensamento. Às vezes, deliramos, como em frases anteriores.
Choramos, por uma questão de estilo e de pose. Afinal, recusamos as aparências, desde que não estejam relacionadas à aparente despreocupação que temos com as aparências. Aceitamos críticas, desde que digam que somos brilhantes e que o mundo ainda nos conhecerá. Temos nossos óculos de aros grossos, nossa barba (se formos homens), nossa revolta de boutique, nossas camisetas com frases despretensiosamente significativas.
Em um dia ou outro, acabaremos escrevendo um texto, como este, aparentemente irônico e que também apenas aparentemente aponta o dedo para o centro do nosso nada. Assim, pareceremos humildes, nobres, modestos. Enquanto o pôr do sol nos espera para mais um clichê, sorvemos nossa angústia e, doentes, esperamos que, no fim das contas, o vão da noite nos revele que exista alguma espécie de razão.

Entrevista: Daniela Pinheiro

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Por Edwaldo Costa e Patrícia Paola Almeida

O bom jornalismo merece destaque em todo tipo de mídia existente. O Jornal 360 busca, em cada matéria, proporcionar bons momentos para o leitor. É assim que acontece em alguns outros veículos.
A revista Piauí é um exemplo de bom texto, boa leitura e, claro, bom jornalismo. Um dos destaques da publicação é a jornalista Daniela Pinheiro.

Formada pela Universidade de Brasília, Daniela trabalhou por dez anos na revista Veja, passou pelo jornal Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Época, e hoje é repórter especial na revista. Conhecida por produzir longos e polêmicos perfis, já entrevistou o pastor Silas Malafaia, o ex-governador José Serra, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira. Neste mês, Daniela ganhou pela quarta vez o Troféu Mulher Imprensa. E afirma não se imaginar em outra profissão sem ser o jornalismo.

A reportagem do 360 falou com a repórter, que conta sobre seus trabalhos e o jornalismo.

Em seus perfis para a revista Piauí você consegue tirar das personagens revelações impactante. Qual a estratégia para conseguir essas informações? Como lidar com o entrevistado?
Nós temos uma característica na Piauí que eu acho interessante: convivência. Nossas matérias demoram muito tempo para serem feitas. Em geral, fazemos matérias quando o entrevistado nos dá acesso. E depois de um tempo, vem surgindo o indivíduo debaixo do personagem e aí é quando a pessoa fala coisas mais interessantes. A convivência faz a gente perceber, sacar mais a pessoa. Esse tempo com o entrevistado é muito importante.

Qual a entrevista mais difícil que você já fez? Com maior tensão?
Todas são muito complicadas na verdade, mas sempre tem umas um pouco mais. Por exemplo, com o ex-governador José Serra. Foi uma matéria que eu demorei um ano e meio para fazer. Ele desistiu no meio da minha apuração duas vezes, depois disso nós retomamos, depois eu parei porque engravidei, enfim, era bem complicada. E ele é uma pessoa difícil também. Mas a complicação está no pacote das entrevistas.

Quando você terminou de escrever a matéria sobre o Ricardo Teixeira, já percebeu que era polêmica?
Eu não entendo nada de futebol, mas eu sempre fui vidrada na figura dele, o poder que ele tinha no futebol brasileiro, daquele cara que há anos mandava em todo mundo, ele era um rei do futebol. Então, eu não sabia exatamente a repercussão que aquilo teria, porque eu não sou do mundo do futebol. Em algumas declarações dele, eu imaginava polêmica, mas não o quanto seria. Agora, ele foi uma entrevista super fácil de fazer.

Há uma forte presença dos blogueiros no jornalismo hoje. Você gosta do jornalismo feito nos blogs?
Eu gosto do jornalismo feito nos blogs, mas eu acho que nós devemos fazer algumas distinções desse jornalismo. Mas, é super necessário, a linguagem agora é essa, é um jornalismo com mais opinião, um jornalismo personificado. Você dando sua opinião e as pessoas lêem porque querem saber o que você acha daquilo, não mais o que o seu jornal ou revista acham. É uma marca pessoal.

Houve um enorme aumento no número de colunistas na imprensa brasileira. Há um exagero nesta dimensão do jornalismo opinativo ou este mundo complexo exige mesmo estas múltiplas visões?
Eu acho um problema ter tantos colunistas. É colunista demais. Há quem diga que os jornais fazem isso para economizar dinheiro, eles não precisam contratar pessoas, não precisam pagar contrato CLT, então você contrata uma pessoa que faz uma coisa ali uma vez por semana, você não tem um vinculo trabalhista com ela. Talvez para os veículos seja melhor, nesse ponto de vista financeiro. Mas é opinião demais, é difícil até para o leitor, ele fica perdido. E o jornal, talvez ele não tenha que ser o abrigo desse colunistas, isso pode ser na internet, os colunistas poderiam estar um pouco mais identificados com a cara do jornal, não ser a voz do jornal, mas a cara do jornal.

Por que ser jornalista?
Por quê? Eu não sei. Eu sempre quis ser jornalista. Mas por que continuar a ser, é porque é muito gratificante essa profissão. Ela reúne coisas que para a minha personalidade é fundamental, eu odeio rotina, odeio ficar no mesmo lugar fazendo a mesma coisa. Eu adoro gente, eu me interesso pelas pessoas e eu sou muito fofoqueira, adoro fofoca. Jornalismo reúne essas coisas, um dia estou em um lugar, no outro dia em outro, no mês que vem eu posso fazer uma matéria que não tem nada a ver com a última que eu fiz, conheço muita gente, viajo para muitos lugares, eu consigo ler muita coisa diferente. Para a minha personalidade não existe outra profissão, não consigo ver nada que se adeque a mim. É até um problema isso, né? Não consigo pensar em fazer outra coisa.

Botecões de sucesso

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Por Even Vendramini

Nada melhor que sair de um dia cansativo de trabalho ou estudo, ir a um local agradável, conversar com alguns amigos e colegas de trabalho, tomar uma cerveja gelada e comer um petisco, não é mesmo? O happy hour está aí para unir todas essas coisas num lugar só: o barzinho, o boteco.

Happy hour quer dizer “hora feliz” em português, e é o período após o expediente de trabalho em que as pessoas se reúnem em locais informais para beber, comer e descontrair. Pode acontecer em qualquer dia da semana, e não conquistou só trabalhadores. Os estudantes procuram, cada vez mais por opções de bares pela cidade.

Há quem diga que o happy hour perfeito pede um bar especial. Além de pedir, é claro, companhias agradáveis. Cada cliente tem um gosto diferente, e por isso as opções em Frutal são amplas. É incontável o número de bares espalhados pelos quarteirões da cidade, porém alguns se destacam.

Muitas coisas fazem diferença em um bar. Desde fatores muito simples, como a localização, até alguns mais rigorosos como o atendimento. Não é só cerveja gelada que faz um barzinho ser legal, mas a gelada conta – muitos – pontos positivos.


Pelos bares de Frutal

Não é preciso andar por muito tempo em Frutal para encontrar bares muito conhecidos e tradicionais na cidade. Selecionamos três destes que, com certeza, já caíram na graça do povo frutalense.

Bar do gato: Localizado nos arredores do centro, encostado à Câmara dos Vereadores, já funciona há 24 anos. Se engana quem julga o estabelecimento pelo nome. Lá não tem nada de “churrasquinho de gato”. A especialidade da casa, o prato mais pedido, é a picanha, introduzida ao cardápio a pedido de fregueses. Além disso, seu Vanderlei, o Gato, dono do bar, ainda serve espetinhos e algumas porções, como a de gairova. Sem esquecer, é claro, da cerveja gelada, apreciada por muitos.
Todos os petiscos são preparados pelo dono, pela sua esposa, Rosário e por seu irmão, Silvio, que também é sócio na propriedade do estabelecimento.

Segundo Gato, um dos motivos do sucesso do bar é o relacionamento com os clientes. “Pode ser que nosso atendimento seja um dos motivos de sucesso, ou, até mesmo, a cerveja sempre geladinha”, diz. “Aqui é tudo simples, é um “botecão”. Não tem nada de sofisticado.” completa. O bar não cobra a taxa de 10% pelo atendimento. Segundo Gato, a pessoa já escolheu estar ali, na visão dele, não faz sentido cobrar por isso.

A intenção do “Bar do Gato” é justamente oferecer um ambiente tranquilo para as pessoas saírem do trabalho e descansar a cabeça ou conversar com algum colega. O bar abre às 8h e permanece assim o dia todo, enquanto são preparados os pratos que serão servidos à noite, e é fechado por volta da meia noite, no máximo à 1h da manhã.

Bar do Peixe: Estabelecimento conhecido pela sua especialidade: o peixe. Funciona no mesmo local há 19 anos, com o mesmo nome e o mesmo dono. Antônio Kinoshita viu na especialidade do bar a chance de optar por algo diferente que pudesse dar certo. E realmente deu. Hoje, o Bar do Peixe é conhecido na cidade toda, mesmo com concorrentes espalhados por aí.

Antônio conta com sua esposa e seu sobrinho no atendimento do bar. Os pratos servidos são preparados por eles mesmos. Aliás, não são poucos. As porções variam entre os mais diversos tipos de peixes, além do sashimi – muito pedido pelos clientes –, do bolinho de bacalhau e do quibe de peixe. As bebidas servidas são as mais procuradas pelos clientes em geral: cerveja, refrigerante e sucos. Nada mais que isso. O bar não trabalha com bebidas de dose. Um dos fatores que, segundo o dono, fez o bar ficar muito conhecido foi a propaganda boca a boca. “Nunca fiz nenhuma propaganda em jornais, revistas ou até mesmo nas rádios. Nunca precisei disso. O bar começou a dar certo pelas amizades que a gente tinha”, conta Antônio.

De acordo com o proprietário, o segredo do sucesso de seu bar é o ambiente familiar que foi construído através do passar dos anos. O Bar do Peixe funciona das 18h até por volta das 23h30.

Bar do Batista: O Bar do Batista começou por falta de lugar para seu Batista e sua churrasqueira funcionarem. Isso, há 17 anos, quando era inaugurado o estabelecimento que hoje também é conhecido pela cidade toda por servir espetinhos e bolinhos preparados pelos próprios donos do estabelecimento.
A exemplo dos bares citados anteriormente, o funcionamento do bar do Batista é levado adiante pela família. Pai, mãe e filha. No cardápio pode-se encontrar torresmo, bolinho de arroz e, espetinhos de várias carnes, incluindo a de carneiro. Sem esquecer da cerveja gelada, que não pode faltar.

Segundo seu Batista, o movimento do bar aumentou depois que os estudantes vieram para Frutal. “Alguns fecham o bar, outros até abrem. Eles têm fortalecido muito o movimento” disse o dono e também churrasqueiro do bar. Existem, é claro, os clientes fiéis, que frequentam o local desde quando crianças.

Batista aposta na qualidade da comida e na simplicidade para justificar o sucesso do bar. “A gente não tem muita variedade no cardápio, mas o que a gente faz é com qualidade”, justificou dona Hortência, esposa de seu Batista. O Bar do Batista funciona a partir das 17h e fica em funcionamento até a meia noite.


O que há em comum?

Todos os estabelecimentos, sem exceção, apostam na simplicidade para que seu negócio vá em frente. O bom tratamento e a satisfação dos clientes é que movem o sucesso desses bares.

Apesar de não funcionarem nos fins de semana, os bares tem um movimento muito alto de segunda à sexta. E pessoas de todos os tipos os frequentam.

Prova de que esses são os melhores lugares para se descansar a mente e aliviar a tensão do trabalho e da rotina da vida. Depois de tudo isso, é só traçar seu itinerário e experimentar os diferentes happy hour’s da cidade. Tudo, é claro, com moderação.

Lenda ou Verdade? A história de que Chico Xavier não veio para Frutal por conta de maldições

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Por Patrícia Paola Almeida

Um dos maiores líderes religiosos do nosso país é, sem dúvidas, Chico Xavier. Ele foi um dos médiuns mais famosos do mundo, responsável por tirar de vez o espiritismo da marginalidade, tornar a doutrina popular e fazer do Brasil o país com o maior número de espíritas. Durante sua vida, Chico Xavier, escreveu milhares de mensagens psicografadas (texto escrito por um espírito através de um médium) compiladas em mais de 400 livros.Algumas até foram usadas inclusive para solucionar crimes. O médium era carismático, levava uma vida humilde. Seriamente comprometido com a doutrina espírita, viajou por todo o país e para vários lugares do mundo. E morava logo ali, em Uberaba, 137 km de Frutal, mas nunca pisou em terras frutalenses. Por quê?

É provável que diante de um acontecimento estranho ou um crime assustador, você já tenha ouvido alguém dizer: “É por isso que Chico Xavier nunca veio para Frutal.” A explicação comum é que cidade de Frutal está repleta de espíritos obsessores, desencarnados e que perturbam as pessoas e influenciam de modo negativo seus atos. Chico Xavier, como médium muito sensível, estava ainda mais propício ao assédio desses espíritos, que buscavam se comunicar ou atrapalhar sua missão, e por isso não visitou a cidade. Entretanto, histórias sobre Frutal ser amaldiçoada ou outras explicações para ele nunca ter vindo para a cidade não faltam. O que é real?


O espiritismo e Chico Xavier

O espiritismo é uma religião iniciada por Hippolyte Léon DenizardRivail, o Allan Kardec, na França nos anos de 1800. A doutrina mescla crenças esotéricas da época, budismo, catolicismo primitivo e evolucionismo. A base é o conhecimento e a caridade, com ensinamentos intimamente ligados à ciência e filosofia. Chico Xavier alinhou ainda mais a crença espírita ao catolicismo, seu estilo de vida estava ligado a votos de pobreza e ajuda dos necessitados, o que facilitava a simpatia com a crença e popularização entre as pessoas no Brasil. Roberto Carlos, católico fervoroso, visitou o médium e pediu orientação várias vezes.

Chico era querido por famosos e políticos. Dentre as personalidades, Xuxa, Juscelino Kubitschek, Gloria Perez, mantinham contato com o médium. Além disso, fez participações em novelas, filmes, escrevia para jornais, participava de inúmeros programas de TV e suas aparições rendiam milhares de telespectadores. Era quase uma celebridade. Dois milhões de assinaturas foram recolhidas para a candidatura dele ao Prêmio Nobel da Paz, em 1981. Recebia centenas de pessoas todos os sábados no centro que trabalhava para orientá-los. Em seus 92 anos de vida trabalhou para fazer o bem e oferecer amor.

O frutalense e espírita Rouvel Rocca Ravena, de 43 anos, acentua essas características do médium: “Chico Xavier é o elo entre o início da doutrina na França e a continuidade disso de uma forma intensa e visceral no Brasil. É alguém que escreveu mais de 400 obras literárias, mas como se não bastasse isso, existiu todo um trabalho social espetacular. A história do Chico fala por si só. Chico Xavier, sem exageros, é quem mais se aproximou do ideal de discípulo de Cristo”.


A doutrina em Frutal: se já existiu algo ruim, já passou

Sendo a base do espiritismo a caridade, não seria provável que Frutal, uma cidade possivelmente perturbada por maus espíritos, precisasse de ajuda? Frutal tem aproximadamente 60 mil habitantes, e mais de 15 centros espíritas, bem relacionados entre si, que desenvolvem os princípios da crença e um forte trabalho social. A cidade pode não ter recebido o ilustre médium, mas possui pessoas trabalhando todos os dias para o bem dos que aqui residem.

Mas afinal, é verdade que o Chico Xavier não queria vir para Frutal?
Segundo Rouvel, ele não veio por falta de tempo “Chico não foi a muitos lugares, ele tinha muitas coisas para fazer, era um homem com uma saúde debilitada e uma agenda de compromisso intensa. Eu não sei se todas essas histórias sobre essa nuvem negra em Frutal são verdades ou não, mas não importa. Aqui tem muita gente boa fazendo coisas boas por Frutal”, diz.

Jarbas Azevedo filho, de 53 anos afirma “Isso é uma crendice, uma lenda. Chico nos considerava irmãos, ele era um espírito de luz. Agora, o ambiente de nossa casa somos nós que fazemos. Se existe realmente uma áurea terrível sobre Frutal, cabe a nós, espíritas, evangélicos, católicos, de qualquer religião que seja, orarmos e vibrarmos. Devemos querer o bem da cidade. Frutal está crescendo, eu amo Frutal. Se existe essa áurea negativa, ela já deve ter ido embora.” Que assim seja.



A primeira prefeita

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Por Mariana Nogueira 

Uma larga porta com abertura central dá entrada para uma sala aconchegante. Encostado na parede, está um piano vertical que acolhe diversos porta-retratos da família. Uma sala comum, de uma família de classe média. Contrariando os tons neutros da sala, neste primeiro encontro Ciça veste um colorido blazer com estampa floral e jeans. Os cabelos bem penteados e a maquiagem recente denunciam que acabara de se arrumar para a entrevista.

Em uma tarde quente, ainda em 2013, Maria Cecília Marchi Borges, a Ciça, cinco décadas de vida, ex-prefeita de Frutal, abriu as portas da sua casa para uma série de entrevistas. Entre política, família, cuidados com a casa, filhos e projetos para o futuro, a primeira mulher a ser chefe do executivo de Frutal fala sobre certezas, dúvidas, acertos, erros, passado, presente e futuro. Do seu modo, sempre sorrindo e com a fala no mesmo tom tranquilo, quase sem variações, descreve o seu jeito de lidar com o poder.


Veias políticas 

Em três de outubro de 2004, Ciça foi eleita prefeita de Frutal. Pela primeira vez uma mulher assumia o cargo mais alto do executivo frutalense. Mas foi bem antes disso que a política entrou na vida de Ciça. Foram seus avós, o paterno Artur Marchi, e o materno, Alcides Brito, que deram início à carreira política da sua família. Ambos atuaram de maneira indireta no cenário político em Frutal. Outra figura política da família foi o tio materno Celso Arantes Brito, prefeito de Frutal por três vezes.

As primeiras atuações de Ciça na política, se assim podem ser chamadas, foram nos diretórios acadêmicos em escolas como a escola estadual Maestro Josino de Oliveira e o colégio Presidente Vargas, nos ensinos fundamental e médio, além da participação no diretório do Centro Universitário Barão de Mauá, em Ribeirão Preto – SP, onde cursou a graduação em Biologia.

"Pelo amor de Deus, não mexa com isso", dizia Ciça, em meados dos anos 90, quando, já casada com o médico Luiz Antônio Ferreira Borges, o Zanto, via a possibilidade do marido se tornar candidato a prefeito de Frutal. Não era só uma questão de não apoiar a candidatura do esposo, mas de entender bem o jogo da política. As experiências passadas com os familiares políticos ainda eram vivas na memória.

O conselho da esposa não adiantou. Zanto foi eleito em 1992 como vice-prefeito na chapa encabeçada por Toninho Heitor. E Ciça assumiu a Secretaria de Promoção Humana. Em 1997, o marido se tornou prefeito e ela continuou com a secretaria, e esse foi o cargo que fez com que ela se aproximasse do povo, da população mais carente, o que lhe daria uma marca e uma reserva de votos no futuro.

Em 2002, a candidatura para deputada estadual aconteceu, a eleição não. O partido? PMN (Partido da Mobilização Nacional), que foi escolhido ao acaso. Na verdade, foi escolhido por Ciça porque era o único partido sem indicação ao legislativo estadual. Foi uma forma pacífica e discreta de entrar na política. O sangue político que corria nas veias agora estava despontando.

A distância entre Ciça e o poder diminuía. Em 2003, a filiação ao partido PR (Partido da República), o antigo PL (Partido Liberal), levou-a a se candidatar para a prefeitura de Frutal em 2004. Foi eleita com 40% dos votos. A reeleição, em 2008, aconteceu de forma natural, exceto pelo fato dela ter sido a primeira a realizar este fato, já que o prefeito Toninho Heitor, que poderia ter tentado a reeleição em 2004, não se candidatou. Assim, um ciclo de oito anos se completaria.
Questionada sobre que marca caracteriza este período, Ciça diz: “a marca do meu governo é o trabalho”. Mais adiante, será possível entender porque ela pensa assim.

O futuro? Ciça continua no mesmo partido, o PR, e pode concorrer nas próximas eleições a um cargo no poder legislativo estadual ou federal, nada definido. “É uma eleição grande, que demanda uma logística e um planejamento muito grandes, principalmente financeiro”, desabafa. Ciça reconhece que foi conquistada pela política. E que estará atuante nas próximas eleições. De que forma? o tempo dirá.


A Prefeita

"Um líder eleito pelo povo trabalha para o povo", diz ela. No dia 3 de janeiro de 2005, segunda-feira, Maria Cecília acordou cedo para cumprir seu primeiro dia oficialmente como prefeita de Frutal. “A cidade está em minhas mãos” foi a primeira coisa que ela pensou, antes de seguir para o pátio da prefeitura, local que seria seu gabinete até o dia 8 de março daquele ano.  A sede da prefeitura estava em reforma.

Ao assumir o posto, Ciça tinha a lembrança da  experiência do marido como prefeito. E um problema ocorrido na administração Zanto lhe tirava o sono: o atraso no pagamento dos funcionários da prefeitura. Por isso, tinha um objetivo: “eu tinha uma prioridade: pagar todos os servidores em dia, e eu levei isso até o último mês de governo, em dezembro de 2012. Nunca os salários atrasaram.”, enfatiza. “Eu não podia deixar um servidor do município sem os seus direitos garantidos. São pais e mães, são famílias que dependem desse pagamento”, conta e gesticula levando a mão ao peito, deixando no ar aquela ideia de "não faça com os outros, o que você não quer que façam com você". E completa: “o que é justo, é justo”.

Para manter as finanças em dia, Ciça defende seu método: "é preciso cuidado com cada centavo. Não está se gastando muito com tal produto? Desliguem as luzes desnecessárias. Foi assim, avaliando cada empenho a ser pago, que consegui manter as contas todas em dia".

Desde o início, Maria Cecília decidiu abrir as portas da prefeitura para a  população. Às quartas-feiras as portas do gabinete estavam realmente escancaradas. Qualquer cidadão que chegasse por lá seria recebido pessoalmente pela prefeita. Seus principais assessores também ficavam a postos, pois a qualquer momento podiam receber um telefone ou um bilhete com um pedido de providência para resolver um problema levado ao conhecimento da prefeita por um cidadão.
 
Quem vota, deposita um voto de confiança. Quem é eleito, tem a obrigação de fazer com que seus eleitores se sintam amparados pela escolha que fizeram, assim pensa Ciça. Na sala de espera do gabinete, era possível observar pessoas de todas as classes sociais com os pedidos mais diversificados. As 8h da manhã a sala já estava cheia.

Em grupos, as pessoas entravam e conversavam, explicavam a sua situação e porque tiveram de recorrer à Prefeita. Ciça ouvia, anotava e na maioria dos casos, ligava para alguém. Esse alguém era a pessoa que iria lhe ajudar a resolver o problema daquele cidadão. A cena se repetiu até a última quarta-feira de seu mandato.

O trabalho na Secretaria de Promoção Humana, iniciado no governo Toninho Heitor, levou Ciça a se aproximar das pessoas mais pobres e dos seus problemas. Ao  descrever uma imagem que nunca lhe saiu da sua cabeça, Ciça demonstra um semblante comovido. Um dia, uma mulher grávida, andarilha que estava passando por Frutal com um filho pequeno nos braços, estava tomando banho em uma torneira, na rua, em frente ao prédio da Promoção Humana, onde hoje está localizada a Unidade Básica de Saúde Sandoval Henrique de Sá. Vendo a cena, Ciça, mãe de dois filhos pequenos, teve a certeza de que o seu trabalho era essencial para pessoas como aquela mãe. Quase vinte anos depois, a imagem continua muito clara na mente de Ciça, que não se importa se aquela pessoa é de outra cidade. "Enquanto ela estiver em Frutal ela vai ser tratada com dignidade". Ciça encaminhou-a para o prédio da Promoção Humana, mas a mulher se recusou a receber ajuda.

Maria Cecília tem orgulho do Albergue Municipal, inaugurado em 2006, “A vida pública faz de você um instrumento para servir às pessoas”. O albergue tornou  possível oferecer uma cama, um banho quente e um prato de comida para essas tantas pessoas com vidas itinerantes. “Que futuro essa mãe vai dar a seus filhos?”, “Que oportunidades oferecer para essas crianças?” reflete.

Ciça gosta do contato direto com as pessoas. Seu número de celular é quase público. Faz questão de retornar todas as chamadas que, por algum motivo, não pode atender na hora. Conversa com o cidadão em qualquer canto. E as pessoas a procuram, inclusive na casa dela. Ainda hoje, não raro o telefone toca e, do outro lado da linha, pessoas aflitas fazendo pedidos para a ex-prefeita. Ciça diz ter consciência de ser ex, mas que procura resolver os problemas que batem à sua porta.

Já no fim de uma entrevista, a campainha da casa de Ciça toca e ela mesma  atende. No portão está um senhor bem simples, aparentando ter mais de quarenta anos, talvez cinquenta. Ela o convida para entrar e se senta com ele no sofá, exatamente onde ela estava sentada durante a entrevista. O senhor, muito falador, logo começa a se explicar, enquanto Maria Cecília anota tudo. O pedido? O emprego de volta. Ele acabara de ser demitido e precisava do emprego para sustentar a família. A saída? Ir pedir à “madrinha”. Ciça pegou o seu smartphone, e usando o whatsapp – um aplicativo de mensagens – mandou um recado ao atual prefeito de Frutal, Mauri Alves, para que ele atendesse com atenção esse caso.

Na entrevista seguinte, perguntei-a se o caso havia tomado um rumo, e ela respondeu: "fiz a minha parte, acho que tudo se resolveu porque ele (o senhor que havia perdido o emprego) não voltou aqui". E esse é um procedimento ainda corriqueiro. Quando Maria Cecília não consegue uma solução para o problema das pessoas, essas pessoas costumam bater novamente à sua porta, para tentar entender o que pode ter dado errado.

E por que madrinha? Na época em que Zanto era prefeito, Ciça era chamada de madrinha por alguns “meninos”, como ela mesma diz, que trabalhavam no pátio da prefeitura. O apelido carinhoso ficou e ela ganhou uma dúzia de afilhados de verdade. “Dizem que a madrinha é segunda mãe, fico muito feliz de saber que me escolheram pra isso”. Quanto ao apelido, ela não se envaidece, considera como um carinho que as pessoas têm por ela.

Ciça continua muito próxima da população. Tem um jeito de receber as pessoas, abraçá-las e se comprometer a ajudar, o que faz com que qualquer um não hesite em procurá-la. Os adversários dizem ser populismo. Ciça rebate: “poder público quer dizer responsabilidade. Você lida com seres humanos, pessoas com sentimentos, dificuldades e histórias de vida. São pessoas que te escolheram para estar ali, representando-as” ela conta, gesticulando e franzindo o cenho, para enfatizar sua posição.


A mulher

Segunda de quatro filhos, sempre teve boa relação com a família, com um pai muito presente e uma mãe muito dedicada. "Aprendi muito com meus pais, principalmente a compreender as fases do ser humano, e assim, crescer uma pessoa feliz. Sou realizada como mulher e como mãe”, diz.

Brincando, Ciça conta como é a sua relação consigo mesma: “mulher é assim, tem que se cuidar, estar atenta ao mundo, moda e tem que cuidar da saúde”. É um lado que as pessoas não conhecem, porque é vista sempre bem arrumada e sorridente. “Lógico que eu acordo e me vejo cheia de defeitos, acho que o cabelo não tá bom, que posso perder uns três ou quatro quilos”.

Idade não é problema. "A idade chega mesmo, sem dó nem piedade, deixa as marcas do tempo na vida, principalmente das mulheres". Atividade física? Pedalar. É muito fácil cruzar com Maria Cecília pedalando sua bicicleta pelas ruas de Frutal. Faça chuva ou faça sol, religiosamente, ela sai de casa no fim da tarde e pedala por algum tempo. “Mulher tem que ter vaidade, então eu me cuido, a gente precisa estar bem consigo mesma pra estar bem com os outros”, defende.

Ciça, como uma grande parcela das mulheres modernas, executa vários papéis, e o de dona de casa é apenas mais um deles. Faz o que precisar: arruma a casa, lava, passa e cozinha, “adoro cuidar da casa, mesmo com a Neide – sua parceira nos afazeres domésticos – eu faço as coisas, a gente precisa saber fazer, não é mesmo?”, conclui ao mesmo tempo em que questiona.

Maria Cecília tem fé, e muita. Pude notar isso, lá em 2011, no altar cheio de imagens sacras em seu gabinete.“A gente precisa de fé pra superar as dificuldades”. Ciça acredita que a fé move montanhas. Para ela, há tantos problemas no mundo, e é preciso crer, acreditar em algo para que se tenha força, “a fé dá uma condição maior para seguir a sua vida”.


A mãe

"Depois que você tem um filho, você passa a ver o mundo de outra forma". Mãe de dois filhos, Leda, 26 anos, e Luiz Antônio, 23, Maria Cecília se considera uma mãe muito participativa e amiga.
Quando era jovem, Ciça teve uma educação bem diferente da que dá aos seus filhos. Da educação “fechada” ficou o fundamental (respeito, carinho, amizade). Ela diz ter se atualizado:“mudou muita coisa em 30 anos né”. E se os tempos são outros, ela se adaptou às modernidades e as usa em seu favor, “hoje é mais fácil estar presente na vida dos filhos, tem celular,whatsapp, internet”, completa.

Mãe é mãe. “A minha mãe foi excelente na minha educação e dos meus irmãos. Ela era educadora, então nos criou de um jeito muito especial”, ressalta Ciça. Para ela, mais importante que educar é ensinar o caminho certo. “A gente educa e instrui, mas são eles que escolhem que rumo seguir na vida”. Ciça deixa a impressão de que se sente feliz com a estrada que os filhos estão trilhando. “Filho é pro mundo”.


Erros e acertos

Ciça é firme ao dizer que não se arrepende de nada que fez durante os oito anos de governo. Indagada sobre questões polêmicas de seu mandato, titubeia em alguns momentos, mas responde a todas as perguntas. Estas questões foram deixadas propositalmente para o fim da última entrevista, numa dessas tardes calorentas de Frutal.

"Governo Assistencialista". Esse foi uma das críticas mais fortes que o governo Ciça recebeu. O que ela acha disso? "Foi um governo que viu o lado humano, um governo fraternal. As pessoas passam muitas dificuldades. É dever do poder público auxiliá-las no que puder" .

Já em relação ao concurso público anulado, que aconteceu em 2005 e que preencheria vagas na prefeitura, Maria Cecília é categórica: não se arrepende de não ter anulado o concurso quando os problemas foram apresentados ou após a primeira derrota da prefeitura na justiça.  "Confiei e confio no meu assessor jurídico". O caso durou quase oito anos, e só em setembro de 2013 que o Tribunal de Justiça de Minas Gerais anulou o concurso e decidiu que o dinheiro deveria ser devolvido aos inscritos. O assunto muda o tom do bate-papo, mas Ciça afirma que acatou todas as informações passadas pelo advogado Marco Aurélio: “como prefeita, não via nada de errado no contrato com a Unicon (empresa que realizou o concurso)”. Entre as irregularidades apontadas está o favorecimento de candidatos, vazamento de gabarito e a falta de licitação para a contratação da empresa.

"Foi uma forma de me atingir politicamente", manifesta-se Ciça sobre a CEI do Frei Gabriel. A Comissão Especial de Investigação foi instaurada para averiguar supostas irregularidades no Hospital Municipal Frei Gabriel e na Sociedade Amigos do Hospital São Francisco de Assis, e entre as questões levantadas está o pagamento de salários estratosféricos a médicos. Maria Cecília é enfática ao defender a si própria e o hospital Frei Gabriel: “Frutal pode se tornar polo regional de saúde, o Frei tem condições de se tornar isso. A saúde é muito cara. Qualquer análise apontará que os salários pagos estão na média regional."

Maria Cecília tem seu nome envolvido em treze processos judiciais. Os citados acima são os de maior repercussão e importância. Ao fazer um balanço da sua relação com o poder ela afirma estar satisfeita com o resultado positivo que teve ao deixar o cargo.


O futuro

O que será a partir de agora? Empolgada, Ciça fala do seu novo projeto, uma loja de calçados femininos junto com a sobrinha. Candidata e empresária? 2014 reserva um leque de caminhos para Maria Cecília Marchi Borges, e qual deles ela irá trilhar é uma questão em aberto.

Ciça está bastante confortável com a sua situação atual. Encara os papéis de mãe, esposa, mulher e ex-prefeita com bastante jogo de cintura. Sabe que é uma figura importante na história recente de Frutal. Quem implorava para o marido não entrar na política, agora deixa bem claro que dificilmente sairá.


Só mais uma...

Uma figura política: Juscelino Kubitschek.
Atriz: Aracy Balabanian. Marília Pêra, Glória Pires.
Ator: Antônio Fagundes, Mateus Solano, Tony Ramos.
Um filme: Uma linda mulher.
Uma comida: Feijoada, embora eu coma de tudo.
Uma cor: Azul.
Um livro de cabeceira: Bíblia.
Leitura: VEJA, artigos da Folha.
Mulher que inspira: Dilma Roussef, Marta Suplicy, Zilda Arns, e,  em Frutal, Irmã Sueli e Dona Deusmanda.

Por trás do selfie

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Por Eduardo Uliana 

A onda dos autorretratos, os “selfies” conquistou o mundo. Foi reportagem no programa Fantástico e virou febre entre os jovens. Um dos selfies mais famosos, registrado por Ellen DeGeneres, mestre de cerimônias do Oscar 2014, foi recorde de compartilhamentos nas redes sociais.

Qualquer ocasião, seja um encontro de amigos ou durante as aulas na faculdade, é registrada na forma de um selfie. Sem contar os autorretratos no espelho do banheiro – os mais populares.

Mas porque precisamos dessa autoexposição? Será que depois de nos isolarmos nessas caixinhas luminosas conhecidas como smarthpones, desenvolvemos uma certa carência e a necessidade de expor emoções e intimidades para o mundo? E deste, então momentos pessoais e particulares tornam-se públicos e coletivos. Compartilhamos fotografias e emoções com pessoas que nunca vamos conhecer. E isso é perfeitamente normal em tempos de redes sociais online.

Se por um lado estreitamos relações e aumentamos nosso círculo de amizades. Do outro lado, vale pensar se as amizades virtuais têm o mesmo peso das reais.

Estaríamos vivendo uma realidade solúvel, assim como os inúmeros autorretratos que lotam as linhas do tempo? Realmente precisamos de tantos selfies assim? Já somos vigiados o tempo todo por inúmeras câmeras de vigilância. Monitorados a cada compra no cartão de crédito e analisados por meio de grandes bancos de dados governamentais e empresarias. Sem consentimento ou permissão.

Então, será que alguém está preocupado aonde vai parar todas as selfies feitas pelo celular? Hoje, ter uma vida discreta, longe das mídias sociais é praticamente impossível. Mas quem liga pra isso. Vamos “selfiar”

A beleza a R$ 1,99

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Por Alaor Ignácio

O gato recortado daquela revista, apesar de banal, deu certo ar de graça na naquela parede lisa e lambida do acesso àquela casa. Tendeu ao estável, onde havia um lapso, mas só melhorou um pouco. Aquela família, afinal, perante as cismas ou os enigmas, na certa desejaria colocar aquela outra garça branca, à venda para jardins naquelas casas de flores. Na falta é que foi o gato.
O acesso àquele átrio, de fato, nada tinha a ver com aquilo. O fato é que posta, a estampa clareou o ranço naquilo que lhe foi possível: assim, “sem vida”. E embora aquilo não fosse coisa que se fizesse, conferiu certa beleza à vida, perante aquela porta óbvia. Outro trânsito, quem sabe para um sonho indomável de decoração, feito os cavalos do quadro que corriam na parede na cozinha.
Aquilo, naquilo, daquilo outro. A família adorava colecionar pronomes e adornos das lojas de 1,99. “Bonitinhos” objetos que levavam o solitário pinguim da geladeira a tapar os olhinhos com as asas pretas. Às vezes por ciúmes, outras por vergonha.
Surgiu a banda, com bonequinhos colecionados um a um para a composição “certinha” da melodia. Todos compenetrados em seus instrumentinhos feitos do mesmo plástico que os músicos. A dona da casa tinha certo xodó pelo saxofonista, porque o achava romântico. “Acho romântico”, dizia, com seus olhinhos esperançosos. E da prateleira de mão francesa (R$ 7,80, uma pechincha) eles tocavam, tocavam, tocavam aquela melodia inaudível, que somente os apreciadores de bibelôs conseguem ouvir.
A filha, universitária, aprendera sobre o kitsh na escola. Achava aquilo kitsh, careta, zoado, cafona. E chegava, às raras vezes, até a esboçar uma crítica de arte (“credo, mãe”), quando lhe sobrava um tempo para tirar os dedos e olhos fixos do celular ininterrupto.
Para o pai, era “coisa da mulher”. Se extraviasse os pensamentos com quadros de coisas e cores, flores fakes ou enfeites quem haveria de ligar a televisão às 10 e desligá-la às 22 nos domingões, quase intermináveis?
A vida é longa, e aqueles trecos, cacarecos, vevecos e lindezas são pedaços da composição de uma existência. Cada qual com sua história e função, sua arte e encantamento. Alguém os herdará, profetiza a mãe orgulhosa.
Daquela data pra cá, a cola do gato não soltou, e continua aguçando a visão de quem passa naquilo. Tá lá o gato naquilo que se chamou moldura, aquilo outro e aqueles. Efêmeros são os que compreendem a arte de resistir às facilidades para deixar “tudo mais bonito”. Os sábios vão embelezando o mundo. Uma rosa acrílica ali, um pôster da dupla aqui, um sonho de comprar um quadro novo acolá. Assim “tudo dentro do possível”...

O ônibus de Dona Julia

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Por Ana Carolina Datore

Julia Carvalho, 64 anos, nascida em Itapagipe e criada em Frutal. O que teria de diferente nisso? Uma mulher elegante, casada, que mora em um bairro distante do centro da cidade em uma aconchegante casa com seu marido e três cachorros. O que realmente teria de diferente nisso? Pois bem caros leitores... Julia foi a primeira mulher a dirigir ônibus federal em São Paulo. Sim, ônibus federal, ônibus de linha. E isso aconteceu lá pelos anos 70.

 “O ônibus de Dona Julia”, era assim que tratavam na época. Nos anos 70 ver uma mulher, ou melhor, uma jovem mulher, dirigir ônibus era algo de se espantar. No imaginário das pessoas esse trabalho é predominantemente masculino, mas muitas mulheres também são apaixonadas pelo volante. É o caso da personagem, uma amante de sua profissão. E nada disso foi previamente pensado ou planejado, simplesmente aconteceu.

Em entrevista ao 360, Julia mostrou sua carteira de habilitação, sua carteira de trabalho, seus uniformes da última empresa que trabalhou, as fotografias em preto e branco e as folhas recortadas de jornais e revistas que falavam sobre a mulher que dirigia ônibus pela capital paulista.


1ª marcha: O caminhão do papai

Como tudo começou? O pai de Julia sempre teve caminhão, desde quando ela era criança. Um belo dia em que ele foi viajar, a garota encheu o caminhão de amigos, deu partida e desceu pela rua. Uma criança de 10 anos num caminhão pelas ruas de Frutal. Ao passar pela conhecida avenida Euvaldo Lodi, os amigos do pai da menina pularam na frente para parar o veículo. “Tomaram o caminhão da minha mão. Meu pai me deu uma surra muito grande e então me ensinou a dirigir direito”, lembra.

Quando adolescente, aos 16 anos, Julia se casou e seu marido tinha uma frota de ônibus. Quando um motorista faltava do trabalho era ela quem dirigia no lugar. Ainda menor de idade. Fazia viagens longas, muitas vezes de Frutal até Goiás, Mato Grosso. E tinha mais: viajava grávida. “Quantas vezes menor de idade e com a barriga grande fui para o volante? Parávamos nos guardas, levávamos multa. E então resolvi tirar minha carteira profissional quando completei 18 anos, assim que terminei o segundo grau no Ginásio Brasil, em Frutal.”

O casamento não deu certo na época e Julia se separou. Foi pra São Paulo “dar um tempo de Frutal” e deixou o seu filho com a avó.


Tomando as capitais

Em São Paulo, Julia teve o seu primeiro trabalho como motorista de ônibus, e para isso foi preciso que ela tirasse outra carteira profissional, no Detran. Ficou na terra da garoa cerca de dois anos e voltou para Frutal.

Ao chegar de volta em sua cidade natal teve um desentendimento com seu atual marido. Ele foi para a casa de alguns parentes em Brasília. “Me mandou um telegrama de lá falando que tinha arrumado um emprego na Viação Pioneira. Eu fui pra lá e não o encontrei, fui direto para a Viação. Achei a empresa e pensei que ele estivesse por lá. Cheguei e perguntei, perguntei, perguntei e nada, não achei meu marido. E então decidi fazer o teste para motorista. Fiquei em um apartamento de visitas da firma. Fui aprovada. O alfaiate fez meu uniforme pela noite toda e, no outro dia, já comecei a trabalhar”, conta. Três foram os aprovados daquele teste, dois homens e ela.

Em meio a essa história, o jornal “Correio Braziliense” do dia 7 de janeiro de 1978 publicou uma matéria no caderno “Cidade” com o título “ ‘ELA’ NO VOLANTE. O ônibus de Dona Julia”. Foi desse modo que o marido de Julia a encontrou: “Ele estava no Mercadão comendo um pastel e de repente leu ‘O ônibus de Dona Julia’ e falou ‘gente, o que é isso?’, e a partir de então ele me encontrou e passamos uns tempos por lá. Fiquei famosa, o Brasil inteiro me conheceu.”

A fama de Julia se espalhou por todo o país. A primeira mulher a dirigir ônibus de linha foi destaque no Globo Repórter e participou da abertura do Programa TV Mulher, apresentado, na época, por Marília Gabriela. “Dessa abertura do programa eu nem sabia, porque eles pegaram o tema de mulheres que faziam serviços masculinos, me filmaram e colocaram no início, na abertura do programa. E também dei uma entrevista para Jornal Nacional”, relembra.


Charme – e um pouquinho de desconfiança – ao volante

Ao mostrar suas fotografias antigas, Julia relembra seu tempo de jovem em que dirigia por São Paulo, Brasília e pelas estradas do país. “Eu era magrinha, meu último uniforme tinha uma gravata jeans, eu gostava de ser mais fashion. Gostava de ficar meio cocotinha, o cabelo era comprido, às vezes amarrava, fazia tranças”.

Julia conta que era muito querida pelos passageiros e que em época de Natal não tinha lugar em sua casa para guardar todos os presentes que ganhava. Mas, como nem tudo são flores, tinham as pessoas que não gostavam e até mesmo as que se recusavam a entrar em um ônibus comandado por uma mulher. Fora isso, a motorista sempre recebeu o carinho e a admiração das pessoas que viajavam de São Paulo para o Rio de Janeiro, ou de Brasília para Belo Horizonte.

Ao relembrar de suas trajetórias pelas estradas do Brasil, ela conta que ao mesmo tempo em que recebia duras críticas por ser mulher, muitas pessoas a admiravam e até a paqueravam. “Um dia eu estava em Brasília, e um homem em um carro conversível parou do meu lado no sinal fechado. De repente quando eu saí com o ônibus para levá-lo na garagem, o carro começou a me seguir, andou 40 km, muito longe. Quando cheguei à garagem, meu marido estava me esperando, o homem do carro ficou tão sem graça, deu a volta e foi embora.”.

Ela ainda pode dirigir profissionalmente qualquer ônibus, mas prefere ser motorista particular de carro, fazendo viagens longas, como para o Rio de Janeiro, Espírito Santo acompanhando pessoas que não possuem experiência o suficiente para dirigir em estradas. “Se precisar dirigir um ônibus e ir para algum lugar, eu vou. Estou ainda bem apta para isso, só não quero mais pegar nenhuma responsabilidade com uma linha”, conta.


Um quase desastre e a volta para Frutal

Julia voltou definitivamente para Frutal já tem 20 anos. Morou por 16 anos em uma casa na rua Itapagipe e hoje, com o marido e três cachorros, Julia mora em uma casa que foi toda pensada, planejada e desenhada por ela. É a “casa ateliê”. Mesmo antes de ser motorista profissional, Julia aprendeu, sozinha, a costurar. Em sua casa ela faz capas de almofadas, fronhas, lençóis, tudo manualmente.

Além desse trabalho, Julia também revende roupas de algumas lojas de Frutal. Então a casa vive cheia, além das visitas diárias dos irmãos, muitas pessoas a procuram para esses trabalhos manuais e também para a reforma de móveis antigos. “Adoro fazer essas coisas, porque agora nem tenho mais idade para ser motorista de ônibus, apesar de ainda ser convidada. Mas acho perigoso, a gente não tem mais o mesmo reflexo, não tem mais a mesma agilidade. Vou fazer 65 anos, não sou mais aquela pessoa de 30, 40...”.

Julia decidiu parar de dirigir quando levou um susto na rodovia indo de Belo Horizonte para Brasília. “Eu dormi no volante. Foi a única vez que aconteceu alguma coisa ruim comigo nas estradas. O ônibus tentou tombar, virou de um lado, eu consegui controlar e virou do outro, na terceira vez consegui colocar ele reto. Mas graças a Deus nunca sofri nenhum acidente”. Depois disso, ela foi trabalhar na Viação Rio Grande, em Barretos, há 77 km de Frutal, e ali encerrou sua carreira como motorista profissional.


A família da motorista

Ao falar sobre família, Julia se emociona ao lembrar dos pais e do filho , todos já falecidos. Tem grande orgulho da família que formou com os irmãos, e também da união que eles têm. “Minha mãe era musicista, quando eu tinha 12 anos, ela pegava o acordeom e fazia a gente dançar, eu e meus irmãos. Tínhamos que aprender a dançar e a tocar pelo menos um instrumento cada um. Eu toco piano, violão, aprendi tudo de ouvido, nunca fiz aula. Então quando nos encontramos em um aniversário, tudo vira festa”.

A maior dificuldade em meio a todos os desafios diários da vida foi quando Julia perdeu seu único filho, aos 24 anos. Ele deixou um neto e a mulher que hoje moram em Bebedouro, São Paulo. Quando cresceu, seu neto deu trabalho com relação a dependência química, mas hoje mora com a mãe e trabalha por conta própria. “Eu tenho uma família muito boa, são todos muito amorosos, meus irmãos vem todos os dias na minha casa. Eu tenho orgulho da minha família, somos muito unidos”.

Ao perguntar o que Julia espera daqui pra frente, a resposta é simples e direta: “O que eu espero daqui pra frente é trabalhar menos, passear mais, curtir mais a minha vida. O que pretendo é viver bem, passeando, com saúde, é claro”.

Editorial: a voz vingativa das ruas

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Vive-se uma onda de crimes. E a violência está cada dia mais dentro do quintal de cada um. Sempre quando há esta onipresença do mal cotidiano, levantam-se as vozes em defesa da pena de morte.  
A pena criminal tem o seu caráter punitivo, sancionador, mas deve também ser uma meio de ressocialização. E é aí que o caldo engrossa. Intimamente, e coletivamente, não se acredita nesta ressocialização. É por isso que longas penas, estas que chegam a 80, 100, 120 anos, quando decretadas, trazem consigo uma certa sensação de alívio, pois se espera que  estes infratores não sejam vistos nunca mais e que apodreçam na cadeia.
 O sistema penal brasileiro não permite que ninguém cumpra pena além de 30 anos. E há vários dispositivos legais que permitem que o condenado saia da prisão bem antes do estipulado. E sempre que isso acontece, em casos amplamente cobertos pela mídia, há um sentimento de revolta e impunidade.
O caráter ressocializador da pena é o seu aspecto humano, positivista. É a descrença no mal absoluto e a confiança em que um trabalho dirigido, um ambiente propício, podem tornar o criminoso em uma pessoa sociável. O sistema penitenciário brasileiro tornou isso quase uma utopia. As penitenciárias brasileiras são verdadeiras universidades criminais. Juntando-se a isso o medo ancestral de que a maldade esteja incrustada nas entranhas de muitos, faz com que se deseje, consciente ou inconscientemente, o isolamento permanente destes seres.
A pena de morte é a radicalização deste desejo. Se a vingança pessoal de vítimas de crimes bárbaros é psicologicamente compreensível, a vingança estatal é inconcebível. Não se combate a monstruosidade criando-se monstros. Não se deve dar ao Estado o direito sobre a vida de ninguém. Um único erro judiciário e a morte de um inocente já demoliria o sistema. Como a ausência de erros é impossível, que este mecanismo não seja, portanto, implantado.
No Brasil, um plebiscito, instrumento legal e legítimo, sobre este tema, com certeza daria a vitória para a adoção da pena capital. É em situações como esta que, para o nosso bem, é bom que a voz das ruas não seja ouvida.

Informar é preciso

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Por Lausamar Humberto


Jamais, em tempo algum, houve uma avalanche tão grande de fontes de informações como a que vemos hoje. São jornais, revistas, televisão, internet, livros. Uma imensidão de dados e fatos que, muitas vezes, chega a desnortear quem recebe a informação.
E, justamente por isso, a responsabilidade de quem produz a informação nunca foi tão grande. Mesmo que não a procure, a informação chegará ao cidadão. A correção técnica e a ética na veiculação das notícias farão a diferença entre o veículo de imprensa sério e aqueles que apenas surfam na onda da facilidade de ser um reprodutor de notícias.
A imprensa tem sido uma das mais importantes instituições brasileiras no fortalecimento da democracia e da consciência cidadã. Não cabe a ela somente o simples papel de retransmitir os fatos que lhe chegam. A inércia não é princípio jornalístico.
O jornalismo investigativo tem dado provas de ser imprescindível no fortalecimento das instituições nacionais. Cada escândalo, cada falcatrua denunciados, pavimentam um caminho de reconstrução de uma moralidade pública que só trará benefícios ao país.
Não é função da imprensa a de dizer amém a todos os atos do político de plantão. Pelo contrário, uma boa distância do poder, um posicionamento crítico, faz bem para os dois lados, e faz bem maior ainda para a população.
Não há lugar para partidarismo na boa prática do jornalismo. A responsabilidade social e a ética jornalística pedem que se elogie nos acertos e que se critique nos erros. Quem faz jornalismo que tem lado não consegue cumprir esta regra básica que qualquer boa faculdade de jornalismo ensina.
O jornalista deve ser um cético. Duvidar sempre. Esta sua dúvida o fará um profissional melhor, capaz de questionar as respostas óbvias e banais que muitas vezes virão das fontes, oficiais ou não. Há um quê de fiscal no seu trabalho de narrar os fatos que são de interesse público. Para exaltar feitos já há inúmeros assessores e agências de publicidade. Para mostrar o incômodo, botar o dedo na ferida, às vezes só resta o jornalista.
Poucas profissões podem ter um papel tão atuante e transformador da realidade que a cerca. O conhecimento acumulado pelo cidadão bem informado é o melhor arsenal de que este dispõe para a luta por uma sociedade mais justa, livre e igualitária.

Outra crônica pobre de uma morte anunciada

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Por Alexandre de Paula

É sem engodo. Na falta de cerveja, bebo água e me acostumo, aos poucos, com o amargo natural de tudo que virá. É sem poesia. Apenas um tiro seco, um baque quase surdo, o jeito mais comum de se morrer. É um clichê. Eu, que me adaptei ao lugar-comum em nome de um pouco menos de tristeza, estou na lama pela dor que é mais banal. Respondo a mensagens sem ler, rabisco recados insones e caio, caio aos teus pés.
Eu que jurei que nunca iria te chamar, que pensei que resistiria ao ímpeto de gritar teu nome santo. Falhei. E espero, à sombra da noite, tua partida. Você, que nunca esteve aqui, me levou adiante e não sabe que eu sempre soube a tua ideia. O amor acaba, o amor acaba mesmo antes de nascer. Em Brasília, Paulo, meu caro Paulo, o amor virou pó. E o pó de tudo se juntou ao sentimento de que eu sempre estive velho, de que eu cheguei longe demais.
O amor? Forte ausência de juízo. Ou “pássaro que põe ovos de ferro”, tanto faz. Eu sofro, sempre sofro por aquilo que não acredito. Invento santos, santas e dou teu nome a todos eles, virgens pálidas que não amam. Bem-pensada falta de compaixão. Você que me levou ao meu avesso e que me fez, narciso, amar o que não era nem um pouco espelho e que cravou em mim a tua marca.
Acredito no teu sangue. No teu sangue, que só de longe conheço e mesmo assim roubou meu sangue e me deixou esquálido, como um velho coiote que uiva e chora a vida que perdeu. Tem um hooligan cansado gritando palavras de desordem no meu ouvido e eu ainda nem comecei a chorar  e a praguejar a tua ausência de verdade.
Tem uma alma pobre e porca duvidando de si mesma e desejando a tua dor. Tem um palhaço, em desengano, que não sabe mais rir da própria desgraça e que se entregou à torturada imagem de si mesmo num espelho cheio de ranhuras. Tem a tua mentira de antes impregnada em tudo que dissemos. Tem o Paul McCartney cantando Junk em 1968.
Tem, em tudo isso, um lirismo pungente que eu não soube arrancar.

Marcos Uchôa - "O jornalismo me escolheu

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Por Edwaldo Costa e Isabela Chagas

Marcos Uchôa nasceu na cidade maravilhosa e tem 55 anos. Estudou Ciências Sociais por um ano, na Universidade Federal Fluminense, e dois de Medicina, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Depois entrou para Comunicação Social e formou-se em Jornalismo, na Faculdade Hélio Alonso, em 1984.

Em entrevista para o Jornal 360º, o correspondente internacional da Rede Globo fala sobre sua profissão.

Por que escolheu a carreira de jornalista?
Eu sempre lia muito jornal em casa porque a minha mãe assinava o Jornal do Brasil, que era um grande jornal na época. Mas eu não imaginei ser um jornalista. Primeiro fui fazer Ciências Sociais, depois Medicina. E na verdade eu só fui fazer Comunicação porque a minha mãe estava "danada" comigo porque eu começava e depois abandonava meus cursos de graduação. Então, comecei a fazer Comunicação para acalmá-la, ela ficou meio ressabiada, tinha deixado a Medicina e praticamente toda mãe quer um filho médico (risos). E eu tinha uns amigos que faziam Comunicação, e isso explica o porquê que eu demorei tanto para me formar, demorei seis anos, eu trancava a matrícula quase todo semestre. Confesso que não foi uma vocação, foi uma coisa que aconteceu. É claro que eu sempre gostei de ler, ler muito, mas não posso dizer que escolhi essa carreira, posso dizer que essa carreira é que me escolheu de certa maneira.

Como foi seu início?
Comecei por meio de concurso em 1983, na TV Manchete. Lembro que nessa época eu não era nem formado e concorri com uns 500 candidatos, desses ficaram 60 para fazer um curso e depois foram selecionados apenas dois. Contrataram eu e uma garota. E como ela não entendia muito de esporte, eu que fui cobrir os eventos esportivos que estavam acontecendo. Eu assinei contrato mesmo só no início de 1984. Eu fiquei lá apenas três anos. Em janeiro de 1987 eu fui para a TV Globo.

Qual foi a sua primeira grande cobertura jornalística?
Foram os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984. Mesmo com seis meses de “casa”, tive a felicidade de ter sido escalado para cobrir o evento.

Por que você acha que foi um dos escolhidos para cobrir os Jogos sendo que só tinha poucos meses de profissão?
Eu falava vários idiomas, como: inglês, francês, italiano, alemão e russo. Também entendia de quase todos os tipos de esportes olímpicos. A minha experiência com idiomas está relacionada com as visitas que fazia ao meu pai Pedro Celso Uchôa Cavalcanti Neto, exilado durante o regime militar. A minha ida a Los Angeles foi um privilégio. Também cobri a Copa do Mundo do México em 1986.

Como foi parar na Globo?
Em janeiro de 1987, fui chamado para cobrir as férias de uma repórter esportiva na TV Globo. Em seguida fui convidado para trabalhar na emissora no lugar de um repórter que tinha sido promovido a chefe de Redação. E na Globo aprendi a fazer todo tipo de cobertura, não só a esportiva.

Como é cobrir guerra? Você sabe ou imagina que vai ser escalado?
Normalmente eu sou escalado, mas em várias situações eu peço para fazer a cobertura. Então, é uma mistura das duas coisas, se eu não quiser ir, eu não vou. A TV Globo não obriga ninguém a cobrir uma guerra.

Já sentiu medo ou correu algum risco?
Em qualquer guerra você corre risco. Eu já me senti ameaçado diretamente no Rio de Janeiro fazendo matéria sobre milícias. Isso é assustador, eles conseguem levantar onde você mora, seu telefone e quem são seus filhos. A milícia sabe quem você é, o que você representa. Já numa guerra em outro país não existe nada disso. São outros tipos de riscos.

Como é cobrir uma guerra?
É horrível você ficar vendo gente sofrendo e gente sendo morta. É uma coisa que não faz bem a ninguém. É difícil! E além das pessoas mortas, tem a tristeza entre os vivos, dos parentes, das pessoas que você sabe que estão sofrendo por aquele absurdo, que é a morte daquela maneira. Aquilo te toca, que você se sente mal. Eu já me senti mal. Eu acho difícil um jornalista que vai pra uma guerra, para um tsunami ou algum lugar parecido não ser tocado emocionalmente.

E como é fazer um “ao vivo”/link após cenas “fortes”?
Eu não sou imune à emoção, muitas vezes a pessoa pode notar que eu estou emocionado. Mas, ali na hora, você tem que se controlar, porque no final das contas o importante é você passar a informação. A emoção quem deve passar, mais do que você, é quem você entrevista, com quem você fala. Eu acho que jornalista não é notícia, o que eu sinto ou o que eu deixo de sentir, de verdade, eu não acho importante. Se eu estou numa guerra, foi porque eu quis cobrir, fui quando quis, fui embora quando quis. Muito diferente das pessoas que moram lá, elas não têm alternativa. Nesse aspecto, eu acho que a cobertura de guerra, ultimamente, ficou meio problemática, porque as pessoas acham que o repórter é um herói, e o repórter não deve ser um herói, o herói são as pessoas que moram lá.

Algum país te marcou? 
Vários países me marcaram. Eu acho o Irã, por exemplo, um lugar incrível, sensacional, as pessoas, obviamente não tem nada a ver com o regime. Estou falando do povo, que é incrível, muito criativo e interessante.

Qual dica você deixa para estudantes ou jornalistas que querem ser correspondente internacional?
Acho que não vale só para correspondente, jornalismo tem a ver com informação e com imaginação. Você se imaginar na situação do outro, ter empatia e compaixão por quem sofre ou quem precisa de alguma coisa. E eu acho que tudo isso, informação e imaginação, você adquire com leitura. Não existem truques, os benefícios da leitura é uma das coisas que os pais e avós sempre falavam pra gente. E isso é preciso que seja passado para os jovens de hoje, para que eles não leiam pouco, porque senão vão imaginar pouco. O livro tem esse poder de você imaginar o personagem, imaginar o local, imaginar a situação, é diferente de você ver um filme. E hoje a informação na internet é curta. E qualquer assunto interessante é complexo e qualquer assunto complexo demanda profundidade.

Shivam Yôga: Uma prática de superação e equilíbrio

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Por Caio Machado

Um emanar de autocontrole, esforço e superação. Assim pode ser tranquilamente definida a modalidade Shivam Yôga. A arte difundida pelo Mestre Arnaldo de Almeida, em Ouro Preto, busca se aproximar das raízes do Yôga possivelmente desenvolvidas 15 mil anos atrás pelo deus hindu, Shiva.

Ao contrário do que é fortemente divulgado pela mídia, o Yôga se difere da Ióga. Tanto na pronúncia, quanto em gênero e grafia. O Yôga foi aprimorado cerca de 5000 anos a.C. e pode ser considerado como arte ou filosofia que busca imanência através de variadas técnicas. A Ióga, por sua vez é uma vertente surgida no Rio de Janeiro na década de 1960, e proporciona relaxamento e transcendência por meio de estagnação. As diferenças entre as duas práticas são enormes. O mesmo ocorre quando a modalidade Shivam é comparada a qualquer outra modalidade de Yôga. “Devem ser quebrados os estereótipos de que a prática de Yôga consiste apenas na imagem de uma senhora de meia-idade, com um colan negro, sentada de pernas cruzadas, proferindo o som aum” explica o instrutor Caio Queiroz. O som emitido na Yôga chama-se Mantra e nada mais é do que uma vocalização em sânscrito, idioma falado na Índia antiga.

Caio Queiroz e Ágata Souza Lima utilizam-se da arte difundida pelo mestre Arnaldo Almeida. O casal ministra aulas quatro dias por semana na casa dos pais de Caio. Um local imenso, com vastos coqueiros ao redor da orla da piscina, onde são realizadas as aulas, ao entardecer. Segundo os praticantes, bastam alguns minutos de prática para evidenciar o esforço que o corpo exerce e a maneira como a atividade sincroniza perfeitamente bem corpo e mente.

O casal se especializou na Yôga em Ouro Preto. O mestre Arnaldo de Almeida ministra um curso de formação com dois anos de duração, o mesmo feito por Caio e Ágata para que eles se tornassem aptos a ministrarem aulas. O curso de Shivam Yôga tem duração de nove meses e o de Massagem Indiana Ayurvêdica, dez meses. Após se formarem e celebrarem sua Satsanga (festa de formatura do Yôga), os dois deram aulas por um ano em Ouro Preto e Mariana.

Frutal, a cidade natal de Caio Queiroz, até então não possuía nenhum professor de Yôga. A ideia de regressar e montar seu próprio núcleo em Frutal surgiu daí. Consolidados no centro da cidade há cerca de nove meses, os instrutores já contam com dezenas de alunos e a procura cresce cada vez mais.



Priviti, suas características e seus praticantes

A cirurgiã dentista Isabela Abi Rached, começou a praticar Shivam Yôga há pouco tempo e diz sentir resultados satisfatórios. O primeiro contato aconteceu com Caio, dois anos atrás, e se tratou apenas de uma experiência teórica e visual. Na época, o instrutor, ainda se graduava em Ouro Preto.

Isabela pratica quatro dias por semana e afirma que está se dedicando bastante à prática. “Gosto de me arriscar nas posições onde se tem pouco apoio e o corpo fica em suspensão. Sinto minha musculatura mais tonificada e enrijecida, minha postura está melhor e me sinto mais feliz no meu dia a dia, levo a vida de forma mais leve e tranquila”, ressalta.

Pritivi, o nome escolhido para o núcleo de Shivam Yôga de Caio e Agata, faz referência à Mãe da Terra, uma das divindades hindu. O casarão onde as aulas acontecem é muito arejado e não possui nenhum climatizador de ar. A atmosfera depende totalmente da temperatura externa.

A trilha sonora da aula é toda composta por músicas clássicas indianas, repletas de solfejos e instrumentos exóticos com suas nuances ambientes. Nomes como Ravi Shankar e Dagar Brothers, são apenas uns dos artistas que sincronizam as aulas ministradas no Priviti, que não faz restrição de idade. É necessário apenas que o praticante esteja disposto.


É preciso querer para sentir os benefícios

Para Caio, os benefícios que o Yôga trás para a saúde são incontáveis. Além do emagrecimento, condicionamento físico e melhora significativa na postura, a arte proporciona mais disposição e energia para os praticantes. O fortalecimento do corpo e autocontrole também são pontos fortes do exercício.

Frequentemente, pessoas são indicadas por médicos para que busquem a prática do Yôga. Faz-se necessário esclarecer que o Shivam Yôga não é nenhum tipo de fisioterapia ou educação física. A prática da modalidade beneficia sim o corpo e o espírito, mas não de forma prescrita ou medicinal. A vontade de praticar deve partir da pessoa. Do contrário, as aulas não surtiram o efeito correto, pois a prática do Yôga nada mais é do que a perfeita integração entre o corpo e a mente.

A alimentação sugerida aos yogues, praticantes de Yôga, é a lacto vegetariana. Caio e Agata produzem geleias de amora, pães integrais e a ideia é de que esse hábito se consolide cada vez mais. O processo de desintoxicação alimentar dos alunos ocorre de forma voluntária e consciente. O próprio praticante irá perceber que uma alimentação melhor lhe trará melhores condições de praticar o Yôga. Não há nenhum tipo de restrição para quem se alimenta de carnes ou frituras, e não existe sequer indução por parte dos instrutores para a mudança alimentar dos alunos.

Ágata Souza Lima compara a formação do Yôga com uma universidade. “O Shivam Yôga nada mais é do que um facilitador. Através das técnicas, nós mostramos aos alunos que eles são capazes de desenvolverem um autodomínio e um autoconhecimento de seus corpos. Com isso eles desenvolvem e aprimoram o bem-estar, a confiança e a determinação” afirma. O Yôga trata-se de um caminho mostrado ao praticante para que ele expanda sua mente e se supere cada vez mais. Diferentemente do que se imagina, a prática requer muita disciplina e esforço. Certas posições parecem fáceis ao olho nu, mas ao posicionar-se no tapete percebe-se que muito suor será gasto até que o yogue se aprimore e atinja a postura correta.


Desmistificando uma ideia 

Empunhando o livro de bolso “Tudo sobre Yôga”, do Mestre DeRose, famoso educador de Yôga no Brasil, Caio ressalta uma parte importante do texto dedicada aos jornalistas, segundo o autor: “aqueles que têm o poder de influenciar tendências”. O apelo é feito para que a mídia resgate a verdadeira imagem da arte, que devido à desonestidade e irresponsabilidade de pessoas leigas, sofreu com opiniões omitidas equivocadamente sobre o Yôga.

O sensacionalismo por trás dessas opiniões foram amplamente divulgadas por programas televisivos e editoras que, até hoje, vendem a imagem de sonhos, ilusões, turbantes e misticismo. A ideia errônea de que o Yôga funciona como autoajuda ou forma de religião ainda vigora, e a necessidade de quebra desses paradigmas é essencial para a valorização dessa prática milenar.

Anunciar é preciso

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Por Fabíola Parreira e Nathalia Kuramoto


O ENADE – Exame Nacional de Desempenho de Estudantes –, que avalia os graduandos em relação às competências previstas nas diretrizes dos cursos, divulgou no fim de 2013 suas notas da última avaliação. A publicidade e propaganda da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais – Campus Frutal, obteve nota máxima na escala que varia de 1 a 5.  A partir desse dado, surge a questão: como a excelência no ensino se reflete no mercado publicitário de Frutal? O curso existe desde o ano de 2007. Com quatro turmas de publicitários e jornalistas já formados, a profissionalização do trabalho que envolve comunicação na cidade sofreu alterações.

Laérte Luppino, dono da rede de óticas Luppino, relembra dos primórdios do uso da publicidade em Frutal. Quando ainda não existiam agências responsáveis por esses trabalhos, ele mesmo escrevia o texto publicitário da sua empresa para divulgação nas rádios. Hoje, a conta do seu estabelecimento é de uma agência: “Conto com profissionais competentes para a divulgação de minha rede, e percebo, claramente, a diferença.”

Proprietário de quatro óticas em Frutal, o comerciante conta que cada loja tinha um anúncio diferente. Depois, confiou o trabalho à agência de publicidade, e surgiu a ideia de criar não um nome, mas uma identidade ao seu comércio. Isso acarretou em uma forma mais direta, menos confusa e mais eficiente de anunciar.


Trabalho longo, verba curta

O pioneiro em agências de comunicação em Frutal, Brenno Oliveira e Silva, diretor geral da Atual Comunicação, lembra-se da desconfiança dos comerciantes frente a uma nova mídia. Era uma barreira a ser quebrada: “consideravam a publicidade uma despesa e não um investimento”, comenta.

Oito anos depois da fundação da Atual, Brenno ainda encontra algumas dificuldades no trabalho, mas não deixa de confiar na publicidade: “É um trabalho árduo e, às vezes, frustrante. Mas é preciso muita persistência e acreditar no que se pode oferecer de retorno para uma empresa. Geralmente, os comerciantes não acreditam no trabalho de uma agência de comunicação, por isso todos os contratos fechados são curtos e o trabalho fica comprometido pela ânsia do resultado a curto prazo. Além disso, os orçamentos de campanha são quase sempre reprovados”, revela.

Farid Santhiago é proprietário da agência Onzee, que completa dois anos este mês. Ele já trabalhou em cidades maiores, decidiu voltar e aponta algumas diferenças de mercado: “nas grandes cidades, lidamos com grandes orçamentos. Aqui temos que fazer milagre com pouco e poucas mídias. Mas a criatividade nos ajuda. No começo, foi difícil conscientizar o público de que publicidade funciona, mas acreditei na cidade, percebi que estava crescendo. Tinha suporte e clientes em potenciais.”, comenta.

André Quitério é professor de publicidade e propaganda da UEMG, mas já atuou no mercado publicitário de Ribeirão Preto e diz: “Os comerciantes só dão valor quando dói no bolso, por perder clientes ou oportunidades, ou quando dói no ego. Quando os concorrentes estão com uma comunicação muito melhor do que a deles, eles sentem a diferença.”.


Da universidade para o mercado

Quitério também  é orientador dos trabalhos na agência escola INOVA. Na INOVA os alunos transformam a teoria da sala de aula em trabalho prático. Apesar de algumas dificuldades na questão de orçamentos e na participação ativa dos alunos, André se orgulha dos talentos descobertos: “A agência está se tornando referência para outras agências da cidade. Algumas, inclusive já me roubaram, no bom sentido, vários estagiários.”, afirma.

Fato comprovado pelas palavras de Brenno: “a UEMG, nos possibilitou sonhar mais alto. Antes, a empresa sofria muito com a falta de mão de obra especializada, e hoje, através destes estagiários, conseguimos formar grandes profissionais.”.

Farid também reforça o coro para o potencial que há dentro da universidade: “Já vi grandes talentos. Alunos que vieram com muitas ideias boas para a agência, alunos que eu admiro muito. Trato meus estagiários como empregados. Dou-lhes grandes responsabilidades. Não deixo apenas uma foto para recortar, então o trabalho é bem feito.”, revela.

A aluna Giovanna Mesquita, que se formou no fim do ano, já passou por algumas experiências de estágio na cidade e afirma que muitos alunos encontram dificuldades para conseguir oportunidades: “Surge o desafio de se lançar a outros setores, não necessariamente em agências, porém dentro da mesma área. Talvez não seja possível estagiar exatamente no setor em que se escolhe, e conheço alunos que passaram por isso.”, comenta.

Prestes a receber o canudo,  Giovanna avalia as expectativas para o futuro: “Essa insegurança que cerca os jovens formandos existe, e acredito ser comum. Ser publicitário exige dinamismo e iniciativa”.


Um homem do campo

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Por Mariana Nogueira


Adalberto Queiroz é uma figura um pouco mítica em Frutal. Há décadas é um dos maiores empresários da cidade. Seu poder econômico é conhecido. Já na política, é homem de bastidor (com duas exceções, mais adiante esclarecidas). Mas, mesmo discreta, na sombra, sua atuação é sempre importante. Homem reservado, raríssimas vezes deu alguma entrevista. E sempre que o fez, foi sobre questões pontuais. Fazer um perfil deste empresário, o que requer uma longa entrevista em profundidade, exigiu negociações. De início, não queria falar. “As pessoas não precisam saber da minha vida”. Vencida a resistência inicial, era chegada a hora do encontro.

Já passava das 17h quando Adalberto abriu as portas do seu escritório para me conceder a entrevista. Seria a única oportunidade que eu teria de entrevistá-lo e, assim, tentar captar com as palavras que ele diria um pouco de sua vida, de sua essência e de sua alma. É isto que busca um perfil jornalístico. Temia que a conversa durasse no máximo vinte, trinta minutos. Aí o trabalho estaria perdido. O perfil não sairia. Ficamos exatos 119 minutos conversando sobre quem é este senhor de meia idade e modo um tanto rústico.

Essa não foi a primeira vez que o entrevistei. Houve um encontro passado em que o assunto era o surgimento dos leilões de gado em Frutal. Como Adalberto já me conhecia, isto me deu alguns créditos na hora de fazer perguntas que, provavelmente, nunca haviam sido dirigidas a ele.


Quem é Adalberto Queiroz?

Questionar uma pessoa sobre quem ela é não é tarefa fácil de ser feita. Nem todas as pessoas sabem se definir. Pergunta feita. Dada a largada para a construção desse perfil.  Família é a palavra que define Adalberto José de Queiroz, 64 anos, empresário do setor agropecuário, natural e residente em Frutal. Nunca pensou em se mudar. Frutal o recebeu no mundo e aqui permanecerá.

Quando nasceu, tinha duas irmãs, a mais nova com 20 anos. “Eu fui sozinho na vida”, ele diz. Aos 10 anos de idade, foi levado para o Colégio Diocesano em Uberaba. “Minha mãe tinha na cabeça que eu devia estudar”. Adalberto era o mais novo do colégio Diocesano e “era menorzinho e só apanhava”. No ano seguinte mudou para o Cristo Rei.

Com quatorze anos, abandonou os estudos e decidiu trabalhar. Foi com dezesseis anos que descobriu que podia ser emancipado. Explicou aos pais que já podia ser independente, levou-os até o cartório e assim fez. Com 16 anos adquiriu legalmente a responsabilidade de adulto. O pai depositava muita confiança em Adalberto, “mas em troca de resultados”. Na mesma época, ganhou uma camionete do pai, para usar no trabalho. Não podia dirigir na cidade, pois não tinha habilitação, só dirigia no campo.  “Eu chegava na cidade e o guardinha da guarda mirim estava me esperando, então eu pedia para alguém me trazer até dentro da cidade e depois ligava para me buscar” explica, fazendo gestos imitando os telefones antigos à manivela.

Com 20 anos Adalberto se tornou vereador de Frutal. Na época o cargo não era remunerado, era um serviço público oferecido a cidade. Um “serviço prestado”, como ele diz. Aos 21 assumiu a presidência do Sindicato Rural de Frutal. Era jovem, e assumiu estas responsabilidades porque queria uma Frutal melhor.

Adalberto brinca com um lápis amarelo, já pequeno devido ao uso, enquanto fala da sua vida e da sua personalidade. Pesquisando a vida de Adalberto para esta entrevista e tendo este segundo contato desta vez, mais demorado, um julgamento, talvez apressado, pode ser feito: o empresário, que aos olhos de muitos parece ser uma pessoa rude, é um homem de hábitos simples e de uma inteligência privilegiada, que aprendeu com a vida a lidar com o mundo. “Não vivemos para poder dar satisfação ao próximo. Não vivo com esse objetivo, meu objetivo é transparência, caráter, responsabilidade. Ser verdadeiro”. Ele ainda se gaba da sua alma jovem: “A maior virtude do ser humano é a juventude. Eu me considero jovem”.


Família

Ao falar do pai, Adalberto interrompe a entrevista e fica com os olhos marejados. Nesse momento, aponta para um quadro, na verdade uma foto. Nela há um carro de boi, algumas pessoas e um menino em um cavalo. O menino do cavalo é o pai de Adalberto. Nesse momento, a entrevista é interrompida por uns minutos de silêncio.

Adalberto casou-se com Maria Aparecida Queiroz, a Cidinha, filha de um primo primeiro dele, e juntos tiveram cinco filhos. “Éramos dois, tivemos cinco filhos, passamos a ser sete, vieram as noras e os genros, passamos a ser doze, tenho seis netos, e em breve seremos 19, tem um netinho a caminho”, brinca.

O maior orgulho de Adalberto é a sua família, ele diz isso com gosto. Está satisfeito com o caminho que os filhos estão seguindo. “Ensinei-os que a família vem em primeiro lugar e depois o trabalho”. Hoje, os três filhos homens de Adalberto trabalham junto com ele no Grupo Queiroz de Queiroz. Dois – Neto e Rafael – cursaram agronomia na Universidade de São Paulo (USP) e Thiago na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). “Eu nunca soube o que era agronomia, eu sabia comprar boi e vender boi” até que o filho mais velho entrou para a faculdade de agronomia. Adalberto falou pra o filho “vai se especializar em pastagens, então”, graceja.

As filhas: uma veterinária e empresária – Maria Graziela – e a outra, psicóloga – Polliana. Também do ramo, Graziela ajuda o pai com a produção de leite nas fazendas. Polliana exerce a profissão em São José do Rio Preto – SP. Nos finais de semana, todos os filhos e netos se reúnem para as refeições. “A grande vitória do pai é assistir a vitória dos filhos”. Para a esposa, Adalberto é só elogios: “minha maior conselheira é a minha mulher”.

No dia da entrevista, Adalberto estava radiante porque tinha acabado de saber que o neto estava aprovado na faculdade para cursar Agronomia. Para ele é uma prova de que o sangue dos antepassados está passando de geração em geração, “você não cria os filhos pra viver os sonhos seus. Mas em alguma coisa dos sonhos deles vai ter algo de você”, filosofa.

“O melhor lugar do mundo é a minha casa”, diz Adalberto de maneira firme. O empresário, que viaja no máximo 200 km para chegar à sua propriedade rural mais distante, afirma que não dorme fora de casa. “Chego 2h da manhã, mas eu durmo na minha casa”. Questionado sobre os problemas que um grande empresário encara diariamente, lacônico, ele explica que problemas ficam do lado de fora. “Tem uma árvore na porta da minha casa em que eu penduro as minhas dificuldades lá: não levo questões de trabalho para dentro da minha casa”.


Política

“Graças a Deus eu saí da política” fala, com certa dureza na voz enquanto organiza sistematicamente as canetas em cima da mesa. Adalberto comenta seu mandato como vereador: “foi muito bom ser vereador. Tive oportunidade de estar em lugares que eu não poderia ter estado se não fosse a política. Não me arrependo”. No fim do mandato, ele disse ao pai “pra ganhar dinheiro, eu vou trabalhar pra mim”.

Em 1996, Adalberto chegou a ser candidato à prefeitura. Por apenas quinze dias. “A maçonaria fez um movimento para lançar um candidato à deputado estadual. Eram candidatos de toda a região. Foi feita uma pesquisa e o Zanto ganhou a preferência das pessoas. O candidato deveria se comprometer a fazer o melhor pela região. O Zanto se elegeu e recebeu o apoio de toda a maçonaria”, explica. Mas Zanto voltou à Frutal dois anos depois, para concorrer às eleições municipais. Adalberto pensou então que se candidatando à prefeitura, poderia impedir Zanto de abandonar o seu mandato como deputado.

Tendo José Roberto Araújo, chefe da Receita Federal na época, como vice, levou a candidatura adiante. Acontece que o vice não poderia ser candidato e Adalberto precisava de um novo vice. Entre idas e vindas, a pressão política foi aumentando, já que os partidos que demonstravam apoio queriam outras colocações além da vice-prefeitura. “Eu não sou homem de me tornar dependente. Eu estava tentando ser prefeito por dois pontos: pra manter o Zanto deputado e para prestar um serviço á minha cidade. Eu não suportei a pressão”, Adalberto esclarece e completa “Política é arte da traição, do encontro e desencontro”.

Não é segredo para nenhum frutalense que Adalberto esteve ao lado de Mauri Alves, atual prefeito de Frutal, na campanha no ano passado. “Não devemos ser alheios à política” aconselha. Todavia isso não dá a ele a liberdade de “frequentar” o mandato de Mauri. “Se ele fizer algo que eu acho errado, eu vou chegar nele e falar. Se não, vou ficar com consciência tranquila porque ele está fazendo o trabalho dele”.

Outras figuras políticas fazem parte da vida de Adalberto. Os mais próximos: o deputado federal Nárcio Rodrigues e o deputado estadual Zé Maia. “Sou muito amigo do Nárcio, eu acredito nele e ele acredita em mim. Ele é uma pessoa de lealdade a toda prova”, diz e emenda: “sou amigo do Zé Maia também, outra pessoa que eu acredito ter feito um grande serviço para a nossa região, nos representando na assembleia”.

A palavra poder no mundo de Adalberto é um estado, uma condição. Ninguém é poder, as pessoas possuem certo poder em determinada parte da vida, como os políticos. No pensamento dele, muitos se encantam com o poder, com o “estar por cima” e se esquecem de que isso, “estar no poder”, é passageiro. Quem vê o empresário não imagina o quanto de poder ele tem. Adalberto não é deslumbrado. “ Eu consegui construir alguma coisa na vida porque a vida foi generosa comigo, mas eu respondi com trabalho”.

Quando o assunto é o Campus da Universidade do Estado de Minas Gerais, construído em um terreno doado por Adalberto, o chavão de “Dono da UEMG” não o agrada, ele franze a testa e é contundente: “cada pessoa vê as coisas do jeito que quer ver. A UEMG é uma contribuição à cidade. Eu acredito que uma cidade, estado e país só se desenvolvem por causa da educação”. O empresário acredita que as pessoas enxergam as coisas com olhos de malícia: “eu sou dono dos terrenos até chegar ao campus. No campus eu não tenho interferência”.

Fiel apoiador da educação, Adalberto descreve a sua amizade de vida inteira com o diretor do Campus Frutal da UEMG, Ronaldo Wilson. “É uma amizade muito maior do que as pessoas conseguem enxergar”. Ele ainda conta que foi um dos responsáveis pela formação do amigo: “quando eu era presidente do Sindicato Rural, ele era cobrador no sindicato. Eu falei pra ele estudar, concluir o ensino médio e cursar a faculdade”, conta orgulhoso.

Quando questionado sobre os políticos que governaram Frutal recentemente, um breve silêncio toma conta do escritório – provavelmente, Adalberto está avaliando em sua cabeça as palavras que deve usar – e balançando na cadeira, ele resume o que pensa sobre Toninho Heitor, Zanto e Maria Cecília em poucas palavras.

“O primeiro mandato do Toninho, eu acho que ele foi um imperador. No segundo mandato, ele foi uma decepção; queria comandar sozinho. Ele é uma pessoa excepcional, mas acho que não como administrador”, diz sobre Toninho, que foi arquiteto de sua casa e de seu escritório. Zanto para ele é uma “incógnita de vida”.  Adalberto crê que, como médico, Zanto é excelente, mas na política “ele não se saiu tão bem”. Já Ciça é classificada como uma “pessoa de bem”, pela forma como ela administra de maneira segura os gastos e pelo jeito de lidar com as pessoas. Adalberto finaliza dizendo que Frutal precisava de uma pessoa mais “desenvolvimentista”, com uma visão mais ampla, e Mauri representa para o empresário tudo isso. “Ele é mais ousado, é uma pessoa com visão de futuro”.


Vida rural

As botinas sujas de terra confirmam o ofício. Adalberto é um homem campestre, que vive entre bois e pastagens. “Quando meu pai morreu, eu tive que assumir tudo, não tinha ninguém na família com habilidades no serviço do campo, então eu passei a desempenhar o papel do meu pai”. Assim ele se mantém firme na sua lida, entre criação de gado de corte, confinamentos, gado leiteiro e serviço braçal.

Priorizar a família fez com que Adalberto trouxesse os filhos para perto logo que se formaram. Isso explica porque o pecuarista entrou para o ramo das usinas de açúcar, etanol e energia. Empresários de Pitangueiras – SP queriam montar uma usina na Boa Esperança, região rural de Frutal. Adalberto foi categórico e disse: “nós podemos montar a usina juntos”. Assim nasceu a Usina Cerradão. “Eu percebi que essa era a oportunidade de os meus filhos ficarem aqui”. Na época, a repercussão da construção da usina foi grande no setor rural. A empresa está sob o comando dos filhos. Adalberto prefere nem se intrometer. “Eu vou lá, dou uma volta, cumprimento o pessoal e só. Meu negócio é boi, mas fico feliz com o desenvolvimento que a usina está trazendo”.

A rotina de Adalberto é dura. Ele acorda as 5:15 da manhã todos os dias, e às 6h já está reunido no escritório com os três filhos. Ele vai todos os dias para uma de suas fazendas – são várias, a quantidade delas ele não revelou. Só tive acesso a um mapa que demarcava as suas terras e posso dizer que são muitas –, “Gosto de fazer o que faço, porque eu faço o que gosto”. Adalberto enche a boca para falar que trabalha e vive da vida rural. E se o olho do dono é que engorda o boi, ele se faz presente em todas as fazendas que tem: “eu coloco a mão na massa”.

Para dar conta de todos os empreendimentos, Adalberto carrega três celulares. “Às vezes, um não tem sinal, mas o outro tem”, se defende. O gosto pelos bovinos é bem presente na vida e no ambiente de trabalho de Adalberto. Em seu escritório, algumas miniaturas de bois talhadas em madeira fazem parte da decoração, bem como um quadro, também de madeira, que representa um boiadeiro tocando o gado. Embaixo do quadro, um aparador com fotos da família.

Ser bem sucedido nos negócios do campo é resultado da força de vontade e presença constante nos negócios. E o maior resultado não é apenas financeiro, mas a satisfação pessoal. “Me orgulho em saber que estou melhorando a qualidade de vida das pessoas que vivem no campo, abrindo estradas, construindo pontes” explica, lembrando-se da juventude no campo e das dificuldades de ir e vir nos caminhos sem manutenção.

Além disso, ser um grande empresário faz com que Adalberto empregue muitas pessoas, algumas vindas de outros lugares, como da Bahia, “eu gosto muito do povo baiano, devo muito do meu serviço a eles”. Ele conta que, com o trabalho, consegue oferecer a essas pessoas que vêm de fora para trabalhar em suas fazendas, por exemplo, alfabetização. Além dos trabalhadores da usina: “posso te apresentar muitas pessoas com cargos relevantes que chegaram aqui sem nada e agora tem casa, um carro na garagem, filhos na escola”. Oferecer dignidade aos seus colaboradores é algo que “não tem preço” nas palavras de Adalberto.

Para o futuro? Adalberto quer continuar levando a vida da maneira que leva. Com um detalhe: Ele espera que Frutal, daqui a dez anos, tenha 100 mil habitantes. “É uma aposta que eu fiz. Eu espero que Frutal se transforme numa cidade um pouco melhor de viver, com menos violência e mais qualidade de vida para todas as pessoas”.

Adalberto ainda alfineta, dizendo que Frutal é melhor – nos quesitos: povo, localização, fontes naturais, terras – do que muitas cidades da região, inclusive Uberlândia. Porém, os políticos que guiaram a cidade não foram capazes de torná-la grande. Ele também espera que as pessoas se conscientizem de que o voto é muito importante para o crescimento de Frutal. E cutuca outros empresários bem sucedidos,  dizendo que muitos fogem e não se importam com o rumo que a cidade está seguindo. “É preciso ter espírito forte para bater de frente com as pessoas, principalmente as pessoas do mal”.


Só mais 5 minutinhos...

No fim da entrevista Adalberto já questionava: “não acabou?” e relutante respondeu às questões finais dessa jornalista. Detalhe: Adalberto admitiu que não queria conceder a entrevista, mas deixou acontecer, porém não tiraria nenhuma foto. “Pode fotografar tudo aqui, mas eu não”.

Peço-lhe que me diga quem o inspira. “Meu pai. No mundo dos negócios, Antônio Ermírio de Morais.”. Um medo: “ficar doente.” Um livro: “no momento estou lendo “Sonho Grande”, de João Paulo Lima. Leio bastante, embora eu tenha preguiça. Já li todos do Paulo Coelho. Leio jornais e revistas também”.

Nessa hora Adalberto abre uma gaveta e tira dela um livro de capa branca, já marrom de terra, o que deixa claro que é um livro bastante manuseado. Abre o livro e lê uma frase: “Amo aquele que sonha com o impossível”, frase do escritor alemão Goethe. Depois ele folheia o livro em busca de outras frases que gosta e faz questão que eu leia todas elas. São frases sobre liderança, ambição e trabalho.  A entrevista termina com o empresário me mostrando algumas fotos em sua sala de reuniões. Quando me despeço, agradeço a entrevista e me desculpo por ter tomado horas tão preciosas para o dia dele. Ele diz: “a conversa foi boa”, e acrescenta: “eu tentei fugir da entrevista, mas amanhã se você quiser conversar comigo eu não vou mais fugir”, fazendo alusão ao fato de encerrar conversas quando as mesmas não lhe agradam.